terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Desfalecer

Olhava para a janela, lá fora o vento e a chuva dançavam ao fundo a trilha sonora era composta por sirenes, buzinas e arruaceiros. Tentava me lembrar de algo perdido, fazia esforço com a memória e nada conseguia, a meia-luz do apartamento dava-me dor de cabeça.
Virei de súbito para a porta, abria-a e desci as escadas sem pensar, quando me dei conta, estava a dois quarteirões de meu apartamento, segurando o guarda-chuva surrado (o qual não se lembrava de ter pego). Seguia sem rumo, era como se uma névoa cobrisse a tudo e a todos, de tal forma que nem sequer notava os transeuntes que passavam, dirigi-me assim, olhando para o chão, perdido em meus pensamentos, depois de minutos que eu não contava, olhei para frente e percebi que estava perto do Hyde park, segui uma pequena rua e entrei num pub por impulso. Não tinha sede, mas pedi uma cerveja, sentei-me sozinho em uma mesa e olhei ao redor, o lugar estava quase vazio, os que ali se encontravam já estavam bêbados. A chuva aumentava lá fora e os bêbados começavam a cantar uma canção. O dono do pub observava com um meio sorriso.
Eu não havia terminado a caneca, mas não agüentava mais aquela gente odiosa, deixei o dinheiro na mesa e saí do pub. Notei que não mais chovia, caminhei de pressa na direção do parque, estava fechado. Olhei o velho relógio de pulso que me pendia do braço direito, já eram oito horas da noite. Peguei um ônibus para casa, embora me parecesse que simplesmente me dei conta quando estava em meu apartamento de tal fato.
Liguei a televisão, passava o noticiário, mal prestara atenção, mas falava de algum acidente grave. Levantei-me e caminhei até meu quarto e deixei-me cair na cama.
Acordei com o alarme, já eram nove da manhã, a noite fora agitada, tive um sonho em que caía de um penhasco. Levantei e fui para a cozinha, não me lembro o que comi de café-da-manhã.
 Quando me dei conta estava em um vagão de metrô indo para o St. James Park e lembrei-me de súbito que iria encontrar amigos lá, mas não lembrava quem. Saltei, subi até o nível da rua, e mais uma vez parecia-me que estava esquecendo alguma coisa, não um objeto, mas um fato.
Caminhei até o parque tentando lembrar, embora fosse outono, o dia estava ensolarado e as árvores do parque brilhavam à luz do sol, fui até o monumento no parque e notei que vestia roupas que me pareciam estranhas. Depois de alguns minutos sentei-me em um banco próximo. Senti minha cabeça pesar e quando voltei a mim estava deitado no banco, e a noite já havia caído, mas não ousei olhar o relógio, resolvi não voltar para casa de metrô, e caminhei toda a extensão do parque, que estava assustadoramente vazio, cheguei à rua do outro lado do parque e continuei andando sem rumo.
Encontrava-me já numa das inúmeras pontes que cruzam o Tamisa, observava o fluir das águas, e tudo aquilo parecia estranho, parecia que eu estava alheio ao mundo, até mesmo que ninguém parecia me notar.
De repente um forte vento soprou em minha direção, e um pequeno papel parou sob meus pés, agachei e o peguei maquinalmente, examinei-o com cuidado e li uma sequência de números:
23 1 11 5
Por impulso, enfiei o papel em um dos bolsos do casaco e tomei o caminho de casa.
Quando cheguei a meu apartamento, começava a chover, encontrei uma pessoa nas escadas, mas não pude definir seu rosto. Abri a porta do apartamento e coloquei sacolas de compras na cozinha, embora não me lembrasse de ter passado em algum mercado, pensei em ver um médico, uma vez que me parecia que minha memória estava enfraquecendo.
Ao lado da porta, em cima de uma pequena mesa estavam as cartas, que presumia eu, foram colocadas ali por um zelador. Folheei-as e notei que eram apenas propagandas e coisas desse tipo, só depois notei que havia uma carta no chão, toda em branco, sem um selo ou endereço sequer. Abri o envelope, e dentro havia um papel dobrado, desdobrei-o e não havia nada escrito exceto pela combinação de números:
23 1 11 5
Lembrei-me rapidamente do pequeno papel e procurei-o nos bolsos dos casacos, com um desespero que surpreendeu a mim mesmo. Não achei o pequeno papel, cheguei a vasculhar os bolsos das calças e as sacolas de compra e nenhum sinal do papel, mas o que me enchia a cabeça agora é que o mesmo código veio até mim duas vezes no mesmo dia! Pensando nisso anotei-o em minha agenda. Senti uma inexplicável dor de cabeça e deixei-me cair no sofá que se encontrava na sala, liguei a televisão, mas sequer prestei atenção a ela, mantive-me assim, deitado e perdido em meus pensamentos durante toda a noite.
O sol entrou pela janela, embora fraco, fora o bastante para me irritar, levantei-me sem me preocupar em olhar as horas, fui à cozinha, mas desviei-me de meu intuito inicial, quando notei um envelope em cima da bancada. Abri-o, no papel havia um escrito em letras de máquina de escrever, lia-se:
Encontre o que perdeu.
Um endereço encontrava-se logo abaixo desta sentença. Logo me vesti e saí, pondo o envelope dentro do bolso, embora seguisse maquinalmente para o local indicado no papel.
Após alguns minutos andando cheguei a uma rua desconhecida, olhei para um prédio que chamou-me atenção por sua aparência antiga e abandonada, era ali o endereço. Abri a porta do prédio e subi as escadas até o andar citado na carta, a luz ali era pouca, mas foi o suficiente para que distinguisse os números logo acima do apartamento no qual deveria entrar, parei de súbito e fitei a porta, tinha um aspecto empoeirado e velho, mas sua maçaneta de latão brilhava. Dei um passo e abri a porta, que estava destrancada, e me espantei, uma vez que a porta não emitiu um som sequer.
Entrei no apartamento, era pequeno, sem divisões nem janelas, apenas simples quatro paredes forradas com azulejos impecavelmente brancos, talvez nunca houvesse visto um lugar tão branco e limpo. Do teto pendia uma lâmpada, mas o lugar parecia tão iluminado quanto o dia ensolarado. Procurei com olhos descontraídos um interruptor que não pude achar. Olhei para a parede paralela à porta, e vi um grande espelho que cobria toda a extensão desta. Observei meu reflexo e fui de encontro a ele, cheguei bem próximo ao espelho, mas diferentemente de qualquer outro espelho, minha respiração não o embaçava.
Fixei então meus olhos no reflexo e permaneci olhando o reflexo de meus olhos tão compenetradamente que nenhum pensamento me passava pela cabeça. De repente um intenso som agudo invadiu meus ouvidos, e uma forte dor de cabeça me atingiu. Desnorteado olhei para o espelho novamente e vi a sequência que antes havia visto, escrita no espelho. Senti minhas pernas fraquejarem, meus braços doíam terrivelmente, e de repente lembrei-me da noite no pub, mas notei que não reparara nos rostos dos bêbados ou do dono do lugar, lembrei-me também do dia em que fora ao St. James Park, e lembrei-me que não encontrei nenhum amigo lá. E rapidamente tentei me lembrar da última vez que reparara no rosto de alguém ou da última vez que conversei com alguém, e nada me ocorreu.
Olhei novamente para o espelho, a sequência não mais estava lá, mas agora havia uma palavra, que parecia ter sido arranhada na superfície do espelho, mas não daquele lado do espelho, passei minha mão sobre as letras e não havia nenhuma ranhura seque no espelho. A palavra, que se encontrava escrita ao contrário era:
ACORDE
Um forte clarão atingiu meus olhos e senti-me desfalecer. Ao fundo tacava uma música. Abri os olhos, não havia ninguém por perto, estava agora em um chão duro, em uma noite escura e a neve caía sobre mim. Fechei os olhos, tentando não sentir a dor que me atingia todo o corpo. A escuridão cercou-me e o branco da neve foi maculado pelo sangue.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Vingança

Era uma terça feira à noite, chovia, mas ele não usava o guarda-chuva. O revólver no bolso de seu sobretudo parecia pesar toneladas, sua mão tateava o ferro frio e ele não conseguia concentrar-se em seus pensamentos, apesar do vento o chapéu permanecia-lhe na cabeça.
Ele estava agora determinado a pôr em pratica aquilo que tinha planejado por meses, o mundo era agora um mero cenário para uma vingança esperada há muito. Embora passasse agora de seus vinte anos, imaginava o momento da vingança desde os 15, lembrou-se mais uma vez de um episodio em que ele fora importunado, e quase sem perceber surgiu-lhe no rosto um sorriso doentio, iluminado pelas lâmpadas amarelas da rua, não tirara a mão do revolver uma só vez desde que saíra de seu apartamento.
Despertando-se da hipnose causada pelo revolver, entrou em um táxi e pediu ao motorista que lhe levasse à rua do subúrbio em que seu alvo morava. Não ensaiara nada, não sabia se o sujeito morava sozinho, ou sequer se estaria em casa àquela hora, mas assim que chegou à rua indicada percebeu que ali, seu crime não seria notado. A iluminação era pouca e o bairro exalava um cheiro de sofrimento, saiu do táxi e o motorista o observou deixar dinheiro suficiente para a passagem no banco de trás. A chuva era mais forte agora, e apesar disso, dava passos lentos até um prédio há muito sem tinta. Os sapatos pisavam nas poças sem piedade, o vento fazia o sobretudo tremular.
Depois de alguns momentos parado em frente ao prédio, examinando-o, entrou. Ali dentro não era nem um pouco melhor que a rua, a iluminação péssima tinha um ar doente, e o frio era intenso, provavelmente pela falta de aquecedores. Não se ouvia um ruído sequer. Começou a subir as escadas segurando novamente o revolver dentro do bolso.
Chegou ao andar desejado, e observou as portas que ali haviam, foi então rapidamente ao apartamento de seu alvo. Pressionou uma campainha elétrica que ele duvidara que funcionasse. Depois de alguns minutos pôde ouvir o som de passos pesados vindo em direção à porta, do outro lado uma voz perguntou quem estava ali, o homem do lado de fora respondeu que era um velho amigo, e apesar da clara desconfiança o alvo abriu a porta e convidou-o a entrar.
O apartamento era velho, e a sala de estar possuía uma poltrona rasgada e uma pequena televisão que ficava em cima de um móvel velho de uma madeira quase totalmente podre, o alvo era gordo, careca, tinha a barba por fazer e usava uma simples calça jeans. Este se desculpou, explicou que não recebia muitas visitas e prestativamente trouxe uma velha cadeira para que a visita sentasse e esta não a recusou.
A visita explicava quem era, e o homem ouviu-lhe falar, e após alguns minutos parecendo confuso disse:- Lembro-me de você, não está nada mal para o pequeno homem que era! Parece que as coisas vão bem para você- disse isso fitando sua vestimenta-, mas acho que pode perceber que pra mim as coisas saíram do rumo. Terminando esta frase, o homem corpulento virou seu olhar para o chão, parecendo arrependido pelos erros passados. A visita acenou com a cabeça para uma garrafa de vodka e uma pistola em cima do móvel onde estava a TV e perguntou:- Bem, parece que tinha planos para essa noite, não?
O dono do apartamento riu forçadamente e disse:- Existem dias em que a vida parece tão insignificante e sofrida! Sabe, gostaria de voltar à época do colégio, em que éramos peças num tabuleiro bem menor não acha?
A visita deu um sorriso irônico e retrucou:- Embora sejamos peões, podemos ainda ser coroados. Mas não façamos jogos metafóricos, vamos ao que interessa.
O visitante levantou-se da cadeira lentamente e se encaminhou à garrafa de vodka, encheu um copo, deu a garrafa ao dono e disse:- Pelos bons e velhos tempos!
O homem de sobretudo virou o copo, enquanto o outro bebeu um grande gole diretamente da garrafa. O visitante então colocou a mão no bolso tocando uma vez mais o frio, porém reconfortante revólver, sacou-o vagarosamente e apontou-o para o homem sentado na poltrona, este nem sequer se moveu, esboçou apenas um leve sorriso. O gatilho estava levemente pressionado e o homem com o revólver disse mais uma vez quase gritando:- Pelos bons e velhos tempos!
Ouviu-se então o tiro e o sangue espalhou-se no chão do apartamento, a poltrona estava banhada de sangue, e de repente uma risada incontrolável acometeu ao vingador, uma risada doentia que permaneceu com ele enquanto descia as escadas, mas quando pisou na calçada ela cessou. A mão permanecia no revólver, que agora estava morno, a chuva, que ainda caía, lavava uma alma elevada pela vingança.