Era noite na cidade, mais uma noite fria e sem vida presenciada por um homem solitário, Frank havia se divorciado há alguns meses, mas ainda não se recuperara, ele ainda não entendia como sua mulher podia tê-lo traído, e se não fosse o fato de pegá-la no ato, ele não acreditaria.
Agora ele andava sozinho pela cidade, tentando encontrar uma razão pra continuar vivo, o parque de diversões tinha luzes em todos os cantos que espantavam a escuridão e a frieza da cidade, ele instintivamente seguiu até o parque, as crianças sorriam enquanto os pais tinham as caras cansadas, em um canto uma tenda vermelha rodeada por crianças chamava a atenção, era um show de fantoches, os pequenos bonecos eram assustadores feitos de uma madeira velha, as crianças assistem quase hipnotizadas um boneco bater no outro com um pedaço de pau, o boneco que apanha pede clemência, mas a voz esganiçada do outro grita:-Silêncio! Você está morto e mortos não falam! Não é mesmo crianças? As crianças respondem afirmativamente e com entusiasmo. O boneco assassino arremessa o corpo sem vida do outro para fora da tenda, e outro boneco aparece no espetáculo, é um policial empunhando um cacetete, ele pergunta ao outro boneco se ele havia matado o outro e o boneco responde com sua voz inumana:- Bem, matar é uma palavra muito forte, eu apenas lhe tirei sua vida inútil. O policial se revolta e anuncia a prisão do boneco. O pequeno assassino diz em tom calmo:- Será que não poderíamos resolver isto de uma maneira melhor? Uns donuts ou um café? O policial balança a cabeça em sinal negativo, o boneco então saca outra vez seu pedaço de pau e espanca o policial até a morte e pergunta à platéia: - Acho que ele está morto, o que acham crianças? As crianças respondem eufóricas que ele está morto e mais uma vez o corpo voa para fora do pequeno palco.
O assassino está sozinho no palco agora, ele olha para baixo e pergunta a si mesmo em voz alta: - O que devo fazer agora? Matei meu melhor amigo, matei minha esposa e matei um policial. Isso me torna ruim crianças? - Frank se espanta por ser uma peça infantil, mas na cidade é preciso familiarizar-se com a morte - As crianças respondem sim, algumas respondem não, o boneco continua a olhar para baixo, uma lágrima falsa cai de seus olhos, do teto da tenda cai um cadafalso, e o boneco coloca seu pescoço nele, em seguida é arremessado do palco e fica pendurado pela corda. Os olhos das crianças brilham e elas aplaudem em um estado febril, aquilo parecia um sonho para Frank, era estranho demais até para aquela cidade.
Frank volta a caminhar, dirigindo-se para a roda-gigante do parque, é como uma grande roda luminosa, chegando mais perto ele pode ouvir o ranger das engrenagens, o jovem que controla a roda-gigante o pergunta se ele quer dar uma volta. Frank tira do bolso algumas moedas e dá ao homem, a roda gigante para e Frank entra numa pequena gaiola de metal, o brinquedo move-se devagar e à medida em que vai chegando mais alto é possível observar as docas e o porto da cidade, mais escuros que a própria noite, aqueles lugares eram não mais do que ruínas agora, as armações de metal rangiam e ele agora sentia-se louco por estar ali. Lá embaixo as pessoas eram pequenas, o suficiente para serem esmagadas como insetos, e por um momento Frank imaginou que todos na cidade eram pequenos insetos, vidas frágeis, prontas para serem esmagadas a qualquer minuto. Ele chegava ao topo, de onde podia se ter uma boa vista da cidade, os prédios com suas janelas iluminadas pareciam pilares que sustentavam a noite, ao longe as fumaças podres do distrito industrial cobriam o horizonte. Olhando a cidade, Frank quase não podia acreditar que um dia ele próprio fora feliz ali. O rosto de sua ex-esposa lhe veio à mente, mas ela não lhe remetia a felicidade, ao longo do tempo ela se tornara apenas mais uma na Cidade, corrompida e infeliz.
A roda gigante parou e Frank saiu da pequena gaiola, as luzes do parque eram fortes e faziam tudo mais medonho, a escuridão da cidade parecia mais segura agora, mas ele continuou a andar pelo parque um mímico se apresentava a algumas crianças, Frank observou de longe e pensou consigo que os mímicos eram sortudos por criarem sua própria realidade, afinal era melhor estar preso em uma caixa do que encarar a dura realidade da cidade.
À frente havia uma casa de espelhos na qual Frank entrou após pagar um ingresso, os espelhos o distorciam, em alguns ele parece mais alto, em outros é mais gordo, há os que o dividem em dois e os que aumentam o tamanho da sua cabeça. Frank senta no chão, ele está rodeado de espelhos. Do bolso da calça ele tira um cigarro e um isqueiro, o cigarro queima lentamente, ele se olha mais uma vez em um dos espelhos, perceber que até mesmo os espelhos mentem não é exatamente algo confortável. Ele sai da casa de espelhos e ruma até a saída do parque, mais uma vez o show de fantoches hipnotiza as crianças e a voz esganiçada do pequeno boneco ecoa pelo parque, Frank hesita ao chegar no portão, lá fora a noite que avança parece ameaçadora.