Era o começo de uma noite fria de outono, o céu era nublado e o vento frio atingia os ossos de Andy. O charuto Maria Mancini não o ajudava a esquentar-se, apesar do olhar insistente com o qual ele fitava o charuto, esperando que dele viesse algo diferente, mas havia apenas seu gosto e cheiro peculiar que agradavam-lhe muito. Tirando os olhos do charuto, Andy rolou os olhos pela paisagem de forma cansada e foi surpreendido ao ver uma mulher, cuja pele branca contrastava com o tom cinza que reinava na noite nublada, ela parecia emanar uma luz, assim como ele lembrava dela na primeira vez que se viram, uma lembrança que tornara-se enevoada, pelo efeito de seu subconsciente forçando-o a esquecer o sofrimento que ela lhe causara. Seu coração disparava agora, mas era preciso ir até lá, era inevitável. Tirando uma pequena garrafa do bolso, ele se dirigiu até ela, e antes de alcançá-la, já havia esgotado o conteúdo do recipiente, ele estava em estado tal que nem mesmo lembrava o que havia colocado naquele recipiente, talvez whisky, talvez vodka, não tinha certeza.
Andy aproximou-se e notou que ela tinha o olhar perdido, como muitas vezes ele já havia notado. Ele disse a ela enquanto sorria:- Oi, há quanto tempo, não? Ela virou-se ainda com um olhar perdido e o fitou por alguns segundos sorrindo, um sorriso belo, mas que fora sempre um mistério para Andy, parecia compassivo e ao mesmo tempo falso e debochado, era quase como se o significado do seu sorriso fosse regido por aquilo que seu observador acreditasse significar. Ela disse em tom despreocupado:-Oi. Realmente faz muito tempo. E ela então o abraçou, ou pelo menos era o que pareceu a Andy, mas a realidade trabalha de maneiras misteriosas. Ele tirou o charuto da boca ameaçando jogá-lo fora, porém ela interveio dizendo:- Não precisa, eu também fumo agora. E ela tirou um cigarro de um maço que estava na sua bolsa, enquanto o acendia, ele pode notar os olhos dela, haviam-se passado meses, talvez até anos desde que eles se encontraram pela última vez, mas ele ainda lembrava do tom de seus olhos fugidios: verdes com uma aura azul, quase que imperceptível aos olhares casuais, mas que sempre estava presente quando eram vistos com olhos admiradores. Andy continuou a conversa:- Você realmente mudou desde a última vez, eu quero dizer, você não fumava, e agora você parece tão diferente, mas é claro que olhares não dissecam a alma - ela esboçou um sorriso - . Mas você ainda está com aquele cara? Até hoje ele lembrava do dia em que ela o largara para ficar com este "outro", e sua face não escondia sua tristeza ao lembrar de tal dia. Ela respondeu que sim. E ele replicou:- Sabe, eu ainda não entendo como você pode me trocar por ele, você vive dizendo que simplesmente aconteceu, mas você parecia tão feliz comigo... Ela mais uma vez o olhou com olhos compassivos e disse:- Eu não queria que fosse assim, mas foi. Talvez eu tenha sido feliz com você, mas afirmar tal coisa seria hipocrisia sem antes se perguntar: "O que é a felicidade?". E eu não sabia o que era felicidade, e talvez ainda não saiba, e talvez felicidade seja uma das coisas da vida mas quais não existe certeza. Ele respirou fundo:- Talvez eu não devesse desenterrar esse assunto, mas só quero saber o que aconteceu realmente, e se por acaso você está me poupando da verdade é porque ainda gosta de mim, e se gosta de mim porque não está comigo? Ela olhou para os sapatos e enquanto brincava com o cigarro entre os dedos ela disse:- Talvez eu só não seja má o suficiente para te dizer a verdade. Mas acho que você já conhece a verdade, só não quer aceitá-la. Andy, esfregando as mãos, disse:- Shelly, eu estou congelando aqui, não quer continuar essa conversa enquanto tomamos um café? Shelly balançou a cabeça em sinal afirmativo. Eles seguiram até uma cafeteria mais à frente, era uma loja de uma daquelas redes de cafeterias. Os dois sentaram-se em uma mesa perto da janela. Andy pediu um capuccino e um pedaço de torta de amoras, Shelly pediu um café preto. Andy continuou antes mesmo de serem servidos:- Eu realmente não sei o que aconteceu conosco. Bem, como você disse, provavelmente eu só estou escondendo a verdade de mim mesmo, mas me diga: porque você tem me evitado esse tempo todo se você está aqui comigo agora? Ela bebeu um gole do café que acabara de ser servido e disse:- Me desculpe se eu te evitei, mas eu só estava sendo realista, não queria criar falsas esperanças. Ele sorriu forçosamente enquanto cortava um pedaço de torta, depois de engoli-la ele disse:- Você devia provar a torta daqui, é realmente um achado! Mas enquanto ao resto, talvez você não queira aceitar a realidade. Você me manteve longe para evitar os sentimentos que você ainda tem por mim, eu realmente não sei o que passa pela sua cabeça, e não estou insinuando que os sentimentos relacionados à mim são mais importantes do que os que você tem por aquele "cara", só quero testar todas as hipóteses da minha mente. Shelly olhou pela janela e foi possível ver o seu reflexo, seus cabelos ruivos brilhavam sob a luz das lâmpadas amarelas, ela retrucou com ar cansado:- Talvez você esteja certo. Mas eu não posso afirmar com certeza. Ela era uma incógnita para ela mesma, e Andy comeu sua torta, deixando um silêncio tenebroso reinando no lugar.