quinta-feira, 1 de março de 2012

A cidade 6— A Fuga

O carro acelerava rapidamente, Frank saíra com pressa do seu apartamento, embora chamar aquele chiqueiro de apartamento fosse mera bondade, juntara suas coisas como pode, ele não podia mais viver ali naquela Cidade que o tornara um homem sem esperança e sem escrúpulos.
A estrada estava vazia e olhando ao retrovisor, ele podia ver a sombra odiável dos grandes prédios da cidade, monumentos à capacidade do homem de gastar esforço e dinheiro com marcos temporários, versões modernas das pirâmides de gizé, mas aquilo não era mais uma realidade para ele, era necessário um recomeço, e por isso Frank ia em direção ao uma nova cidade, onde não havia essa sombra que paira sobre a Cidade, sombra da perda da humanidade.
Ao lado da estrada ladeada por belos campos verdes que quase ofuscavam a visão acostumada com o cinza metropolitano de Frank, havia uma placa verde que indicava em letras brancas: "White Peaks, 320 km". Era o destino de Frank, uma pacata cidadezinha, onde ele poderia recomeçar, depois daquela noite no parque, Frank não podia mais ficar naquela cidade, o conformismo nojento contraído e repassado por todos o deixava louco, tornando as crianças monstros egoístas, sem qualquer traço de humanidade, e ele não queria tornar-se mais um deles. Sua pressa fora tanta que ele simplesmente jogara suas coisas no porta-malas do carro. Ele distanciava-se lentamente da cidade, e era estranho perceber a ausência de carros na estrada que ia em direção contrária à cidade, era mais um dos mistérios da cidade,o jeito como aquele lugar prendia as pessoas em uma vida miserável que se esvai como a areia desliza por entre os dedos. Mas talvez o problema não fosse a Cidade, como dizia o ditado: "O inferno são as pessoas".
Depois de algumas horas e muitos pensamentos sobre a cidade, Frank chegara ao destino, na entrada da cidade havia um portal feito de madeira do qual pendia uma placa de mesmo material, onde lia-se: "Bem-vindo a White Peaks". Passado o portal seguia-se por uma estrada ladeada por pinheiros, abetos e todo tipo de árvores que Frank desconhecia devido à vida na Cidade, e o primeiro sinal de habitação humana era um posto de gasolina. Frank olhou o indicador de gasolina no painel e decidiu parar para abastecer.
O posto era coberto por uma estrutura de ferro colorida e possuía duas bombas de gasolina que pareciam antigas, pintadas de um verde desbotado. Assim que parou o carro um homem apareceu, era um caipira típico na visão estereotipada de Frank, vestia um macacão azul e tinha um chapéu de mesma cor, ambas as peças aparentavam já haverem passado por anos de trabalho duro, mas suas impressões foram dissolvidas quando o homem no macacão perguntou com seu sotaque arrastado:- Posso ajudar? Frank respondeu:- Complete o tanque, por favor. E o homem no macacão começou a manusear a bomba.
De repente, o homem sem virar-se para Frank perguntou:- Pelo seu sotaque você vem da cidade, não é? Não temos muitos visitantes de lá, mas diga lá: vem aqui a trabalho ou de férias? Frank esboçou um sorriso e respondeu:- Digamos que estou me mudando. E à propósito, onde eu acho um lugar bom e barato para ficar aqui em white peaks? O frentista que tirava a mangueira do bocal do tanque do carro, respondeu em tom pensativo: -Tem um hotel depois da rua principal, o nome é Bhergof hotel, eles te dão um desconto se você disser que o Bill do posto de gasolina te mandou lá.
Após pagar a gasolina e despedir-se de Bill, Frank acelerou o carro até chegar na rua principal. Era estranho sentir aquele ar puro, um cheiro de terra úmida, e ouvir o vento mexer as folhas das árvores era uma experiência tão nova para Frank que ele quase não pode perceber as construções da rua principal, entre diversas lojas havia um prédio de andar único, com portas de madeira e vidro, o prédio era relativamente novo, Frank calculava que teria sido construído no início dos anos de 1970. Na fachada havia uma estrela em metal dourado e letras brancas que diziam: "Delegacia de White Peaks", e dentro da estrela, em letras entalhadas no metal havia algum dizer em latim que Frank não conseguia distinguir, na verdade nunca tivera bons olhos, desde que se lembrava ele não enxergava muito bem, mas por diversos motivos pouco plausíveis, Frank nunca usara óculos.
Mais à frente havia uma construção ainda mais notável, era um prédio cinza, antigo, de dois andares, com uma fachada neoclássica que contava com duas colunas ao estilo grego segurando a marquise, no frontão estilizado lia-se: Prefeitura. Frank desviou o olhar e viu que em uma colina que estava atrás dessas construções havia uma igreja, feita de madeira e pintada de branco com uma cruz enorme em cima da igreja. E Frank estremeceu pensando que até ali naquela cidade tão ingênua havia quem se aproveitasse da boa vontade de seus habitantes, espalhando palavras e promessas falsas.
Ele continuou seguindo, a rua principal começava a fazer curvas e finalmente tornava-se uma subida estreita pavimentada com paralelepípedos que terminava em um elevado, já bem longe da delegacia e da prefeitura.
O carro foi subindo devagar, e Frank não esperava muito mais que isso, pois era um carro antigo, um daqueles carros dos anos 1970, que gastava mais gasolina do que corria. No "topo" da colina via-se um casarão de madeira que parecia antigo, mas estava tão bem cuidado que chegava a brilhar. Era o hotel Berghof, no pátio entrada havia um belo jardim com flores silvestres. Frank estacionou logo na frente do hotel que tinha cinco andares de altura e diversas janelas, havia também sacadas nos quartos do quarto e quinto andar. A porta, que estava aberta, era bela e igualmente de madeira, tinha aparência pesada e uma altura de quase três metros. Frank avançou pelo limiar, e na sua frente havia uma bancada e uma placa de metal pendurada que indicava ser a recepção.
Frank caminhou pelo salão, cujo teto e as paredes eram feitos de uma madeira mais clara do que aquela que havia no exterior da construção, e o piso era de um mármore branco com algumas formas geométricas pretas e pelo que Frank imaginava, não era o piso original do lugar. Havia uma mulher na bancada que recebeu prontamente o homem que entrava com um acalorado "Posso ajudá-lo?". Frank fez que sim com a cabeça e contou da indicação de Bill do posto, e surpreendeu-se com o preço baixo da estadia que a mulher o indicou, era entre 30 e 50 dólares. A atendente perguntou com um sorriso forçado enquanto mexia em seus cabelos cacheados e ruivos, tão falsos quanto seu sorriso:- Nós temos quartos com e sem sacadas, o senhor pode escolher entre a vista para a rua principal (a frente) e a vista para o bosque e as montanhas (atrás). Qual quarto o senhor deseja?
Frank seguira para o elevador, já com a chave de seu quarto que tinha vista para o bosque, era o 402, um dos quartos com sacada. O elevador era antigo, com uma porta pesada de um metal fosco, seu interior era feito de espelhos nas laterais que começavam na metade das pequenas paredes e iam até o teto, abaixo deles, as laterais eram decoradas com mármore branco com desenhos geométricos em tinta dourada. Mas toda a observação do esplendor do elevador acabou quando a porta se abriu no 4º andar, mostrando um corredor cujo piso era coberto em toda a sua extensão por um grande tapete que mesclava um vermelho claro com o verde e amarelo. As portas que davam para os quartos eram de uma madeira escura, quase negra e os números estavam entalhados em placas de metal antiquíssimas. O 402 não era exceção. A fechadura era antiga e encaixou-se perfeitamente na chave que Frank acabara de receber da recepcionista. A porta rangeu um pouco enquanto abria-se, e logo Frank pode ver o quarto. Havia carpete cinza em toda a extensão do piso, à esquerda encontrava-se a porta que dava para o banheiro, e avançando um pouco mais era possível ver a cama de solteiro que ficava encostada na parede e virada para a sacada. No seu lado direito Frank via um antigo móvel de madeira encostado na parede, sobre ele um espelho oval bem simples pendia na parede e ao seu lado uma poltrona de madeira com um forro vermelho que combinava com o papel de parede de mesma cor que havia no quarto.Havia ainda um criado-mudo ao lado da cama, onde encontrava-se um abajur que Frank duvidou que funcionasse, devido sua aparência extremamente antiga e ao seu lado, uma garrafa de vidro sobre uma bandeja de metal, guarnecida de copos, igualmente em vidro. A garrafa, sem nenhum rótulo, exibia um líquido que parecia whisky ou conhaque, Frank não tinha certeza, não era exatamente um conhecedor de bebidas, ele apenas as bebia.
Ele caminhou pelo quarto, deixando sua mala desorganizada em cima da cama, e foi até a sacada, que diferia do quarto por conservar um piso de madeira, assim como aquele que havia no hall de entrada. Havia ainda um parapeito de mesmo material, mas nada disso importava mais quando Frank pôs os olhos na paisagem harmônica que havia ali. Logo abaixo da colina onde situava-se o Berghof hotel havia um bosque que Frank não ousaria chamar de floresta devido à sua pequena área, e logo depois do bosque havia um lago, pequeno, mas ainda assim belo. As águas pareciam claras, mas Frank não podia ter certeza, não com aqueles seus olhos. A paisagem continuava, alternando entra descampados e bosques até reter-se em uma grande massa azulada, eram três montanhas, que se elevavam como deusas sobre a paisagem plana, nos picos era possível distinguir grandes pontos brancos, os quais Frank supôs serem neve, e mais embaixo haviam pequenos pontos verdes que Frank quase não conseguia ver, talvez fossem pinheiros ou coisa parecida, pensou ele.
Frank ficou parado na sacada por um bom tempo, tinha uma expressão idiota na sua face, como se fosse uma criança que assistia um desses shows de tv coloridos e sem sentido. Mas como se despertasse de um longo sono, tirou os braços que se apoiavam no parapeito e caminhou lentamente até a cama, aonde deixou-se cair, e embora o sol ainda brilhasse lá fora, Frank adormeceu por cima de sua mala sem se incomodar.
Ele acordou tonto, sua cabeça girava enquanto seu cérebro fazia a passagem das paisagens oníricas para o mundo real. Ele levantou caminhando até a porta, de onde vinha um som de batidas que o acordara. Do outro lado ouviu-se a voz da recepcionista:-Serviço de quarto. Frank abriu a porta sem computar a informação que seus ouvidos lhe passavam e deparou-se com a mulher magra de cabelos castanhos segurando uma bandeja com xícaras e um bule metálico, ele parou no limiar com uma expressão confusa, de modo que a recepcionista teve que pedir-lhe licença para entrar. A mulher deixou a bandeja em cima do móvel que havia a direita da porta e perguntou:— Sr. Reynolds, o que o senhor faz aqui em white peaks? Nós não costumamos receber visitantes da cidade. Frank disse enquanto servia-se do café que a recepcionista acabara de trazer:— Pode me chamar de Frank. E quanto ao que venho fazer aqui...—Ele fez uma pausa enquanto bebia o café— Eu realmente não sei, tudo que sei é que eu precisava sair de lá. A mulher de mãos esqueléticas sorriu debochadamente e perguntou — Como é lá na cidade? Frank com essas palavras finalmente saiu de seu estado de semi-consciência e olhou com olhos espantados para mulher que o fitava com olhos que tinham ainda o brilho da inocência e concluiu: — É o mais próximo do inferno que se pode chegar. A recepcionista espantada ameaçou dizer algo, mas saiu do quarto sem sequer se despedir, e Frank se perguntou se teria sido grosseiro não perguntar o nome da recepcionista, era um costume da cidade não saber o nome das pessoas. O sol ainda brilhava lá fora no céu azul, e Frank inferiu que seria final de tarde, mas não tinha relógio para precisar as horas.
Ainda com a xícara de ca fé na mão, ele tentava lembrar do sonho que tivera, mas tudo que podia evocar eram lembranças soltas, cinzas, ele via prédios, era a cidade, mas ao mesmo tempo não era, eram prédios estranhos, construções que se curvavam para a rua e brotavam do solo como plantas, suas lembranças foram rapidamente deixadas de lado quando Frank percebeu que não havia comido nada o dia todo, ele resolveu sair do hotel e ir até algum restaurante na rua principal. Assim que abriu a porta do quarto um impulso o fez apalpar os bolsos, tanto da calça, quanto do casaco que ele sequer havia tirado para dormir, tentando achar algo que ele não sabia bem o que era, mas nos seus bolsos não havia nada, exatamente como ele saíra da cidade.
O primeiro restaurante avistado por Frank tinha letreiros luminosos que o nomeavam como Restaurante do Lenhador, apesar do nome, Frank não hesitou em entrar, e sentou-se na última mesa, as outras estavam parcialmente ocupadas por todo tipo de faces estranhas, homens de barba e mulheres que se vestiam como se estivessem nos anos 60, mas a fome era mais importante do que a observação do meio, então pediu à garçonete um hambúrguer com fritas, o qual, assim que servido, ele devorou rapidamente. Frank passou algum tempo ainda observando os outros clientes do "Lenhador", mas nenhum o impressionou tanto quanto a jovem mulher que cuidava do balcão, tinha estatura mediana, longos cabelos castanhos escuros e olhos de um tom esverdeado que destoavam do uniforme vermelho que usava, mas Frank logo tirou os olhos dela, ele sabia que era velho o suficiente para ser pai daquela mulher, e sabia que nunca fora bonito, talvez até por isso tivesse se tornado o homem que tira as fotos, ao invés de aparecer nelas.
Frank era um fotógrafo e um jornalista, na cidade trabalhou por muitos anos em grandes jornais, ele se lembrava com saudade dos tempos em que tudo que os jornais queriam era a verdade, nada de histórias inventadas, palavras que não foram ditas ou pessoas que não existiam, apenas a verdade. Mas nos últimos anos, aparentemente a verdade tornara-se pesada demais para os leitores, à medida que a cidade caía nas sombras do crime e da corrupção, os leitores preferiam abandonar as reportagens sérias e correr para o sensacionalismo barato focado em sub-celebridades. E Frank tornou-se obsoleto com suas reportagens reais, ele foi demitido e estava desempregado desde então. Quanto a sua subsistência, ele fazia alguns trabalhos, tirava fotos, ensaios dos mais variados, e conseguia o suficiente para manter-se na espelunca infestada de insetos que era seu apartamento.
As lembranças e os pensamentos foram deixados quando a bela mulher do balcão aproximou-se com um sorriso no rosto e olhando para Frank disse:— Vai querer mais alguma coisa senhor? Frank balançou a cabeça em sinal negativo sem sequer levantar os olhos para a mulher. Ele levantou-se depois de pagar a conta e murmurou um obrigado.
No caminho de volta para o berghof, ele desviou-se e foi até ao pequeno bosque que ele vira pela sacada de seu quarto de hotel. O sol ameaçava se pôr, tornando atmosfera ainda mais bela, o céu tinha um tom róseo e próximo da linha do horizonte era de um laranja forte. O silêncio seria total não fosse a respiração e o palpitar do coração de Frank, não havia barulho dos pássaros de quando ele chegara, e nem sequer era possível ouvir o vento batendo nas árvores. Frank seguiu uma trilha que adentrava pelo bosque, as árvores tinham algo de místico, elevavam-se de tal modo que mal era possível ver o céu, eram como os prédios da cidade, apenas careciam do terror que tais prédios inspiravam nele.
A trilha logo desapareceu, junto com as árvores, dando lugar a uma clareira onde havia um pequeno lago de águas de um azul brilhante, mas até mesmo o lago era silencioso e Frank ao notá-lo, pensou no quão diferente o silêncio dali era diferente do barulho da cidade, e chegou à triste conclusão que ambos exalavam indiferença, embora muitas vezes o barulho infernal da cidade parecesse clamar pela vida de cada um dos habitantes.


O telefone tocava, um barulho agudo que estremecia a cabeça do homem que acordava aos poucos, ele levantou-se, arrastou os pés pelo corredor e atendeu o velho telefone branco( que devido aos anos já tornara-se bege), a voz no outro lado da linha era grave e parecia cansada: —Detetive, precisamos de você numa cena do crime na Rua Callaway. O homem que acabara de acordar arrastou as palavras de modo indiferente: —Certo comissário, estou indo. O recém-desperto desligou o telefone e foi até o guarda-roupa, retirou maquinalmente um terno surrado de lá, vestiu-o e saiu porta afora, sem nem mesmo perceber que eram três da manhã.
Em outros dia ele talvez não atendesse o chamado, pois sabia que não importava se ele investigasse ou não os crimes, os casos seriam arquivados ou deixados de lado pela justiça falha da cidade. Mas algo o impeliu a sair de casa, talvez fosse tivesse ligado ao fato de seu apartamento parecer-se mais com um chiqueiro do que com um lar aconchegante.
A rua estava escura e as poucas lâmpadas acesas emanavam uma luz amarela que não atravessava a neblina da madrugada, dando à tudo um aspecto fantasmagórico. O detetive foi andando até a cena do crime, já que ele não possuía um carro e a Rua Callaway não era tão distante. A cidade nunca parava, nem mesmo àquela hora podia livrar-se de sua respiração tísica, formada pela harmonia entre buzinas, sirenes, máquinas e gritos indistintos. O caminhar do homem de terno era vacilante devido ao sono e ele decidiu que seria melhor comprar um copo de café no caminho, e foi o que fez. Alguns minutos depois, lá estava ele na cena do crime com um copo de café pela metade na mão.
O lugar não era muito diferente de outras cenas de crimes, era um apartamento velho feito talvez no início do século passado, o papel de parede estava rasgado, a mobília era antiga e coberta por uma camada de poeira, em cima de um tapete desbotado havia o corpo de uma mulher. Mas o detetive espantou-se com a presença de um policial de farda na cena do crime. O policial estava também sonolento e assim que se deu conta da presença do detetive começou a responder perguntas que não foram feitas: — Eleanor Goldberg Reynolds, 36 anos, divorciada, sem filhos, esse apartamento está registrado no nome do ex-marido Franklin Reynolds, a central já pesquisou e concluiu que Frank saiu da Cidade. O policial pronunciou essas últimas palavras com temor nos olhos, e o detetive as ouviu com uma apreensão ainda maior, um suspeito havia fugido, isso nunca havia acontecido durante todo o seu serviço no departamento de polícia, talvez pelo poder de atração e domínio da cidade, talvez pela certeza da impunidade, os suspeitos nunca fugiam.
O detetive aproximou-se do corpo estendido no tapete, era uma mulher que talvez fosse bonita em vida, mas agora seu rosto estava desfigurado e o corpo entreva em estado de decomposição, provavelmente havia morrido há um dia. Os traumas no rosto foram causados provavelmente por algum objeto metálico, talvez um cano ou algo assim, no tapete havia algumas pílulas espalhadas, anti-depressivos talvez. O resto do corpo estava intacto. No apartamento não restavam pistas de um possível assassinato. Os caras da perícia só iriam chegar depois do meio-dia, segundo o policial. O detetive pediu as chaves da viatura para o policial sem dar maiores explicações e depois de conseguí-las saiu porta afora.
Enquanto o detetive dava partida no carro velho da polícia, ele pensava no caso, era estranho um suspeito fugir mesmo que fosse o culpado, afinal —pensava o detetive— ninguém escapa da cidade. Por mais que investigar a casa da vítima parecesse promissor, algo instigava o homem do terno surrado a buscar o fugitivo. Pelo rádio da viatura, ele pediu informações da central sobre esse tal Franklin Reynolds e uma voz abafada pelo chiado do rádio contou que o suspeito não tinha ficha criminal e deu sua descrição física: Era um homem de 43 anos, cabelos castanhos e 1,75 metros de altura. O detetive inferiu por essa descrição que seria difícil achá-lo na cidade, pois quase metade da população batia com aquela descrição.
Era preciso achar tal sujeito, e o detetive tinha um palpite para aonde ele teria fugido. Pelo mapa já amarelado que havia na viatura ele identificou o possível esconderijo: White Peaks, uma pequena cidade, que era estranhamente, apesar de estar há mais de 300 km de distância, o vilarejo mais próximo da cidade, no mapa o detetive só divisava campos vazios ao redor da metrópole, mas ele não se reteu por muito tempo nessa estranha descoberta, era preciso o quanto antes achar o suspeito, embora o próprio detetive duvidasse do envolvimento de Frank no assassinato. A viagem até White Peaks seria grande, e era também a primeira vez que o detetive sairia da cidade em todos os seus anos no departamento de polícia, é claro que ele havia saído da cidade quando criança para passar as férias na casa dos avós ao norte do estado, mas desde que entrara no departamento não havia nem sequer passado pelas estradas que saíam da cidade.
A viagem foi longa e vazia, pois o detetive dirigiu até o sol raiar, e em todo o caminho não pode ver nenhum carro na estrada que levava à White Peaks, e preferiu não perguntar-se porque a estrada estava tão vazia, e talvez não o tenha feito justamente por saber a resposta. Chegando na cidade havia um posto de gasolina, onde um homem de macacão parecia dormir em uma cadeira de balanço, o detetive tocou a buzina da velha viatura, o que causou um sobressalto no homem que dormia e rapidamente disse com o ar e o sotaque simplório: — Posso ajudar? O detetive demorou-se analisando aquela figura estranha e logo depois perguntou se havia visto um homem de cabelos castanhos, 1,75 metros de altura. O detetive tremeu ao ouvir a resposta que ele já conhecia, sim, o frentista havia visto um homem assim e contou que indicara a ele o Berghof hotel para sua estadia. O detetive agradeceu e seguiu em frente sem nem mesmo perguntar o endereço do tal hotel, pois o antigo mapa tinha uma indicação em letras maiúsculas da localização do Berghof. O investigador e a sua viatura chegaram rapidamente à colina em que erguia-se o belo marco arquitetônico que era o hotel, uma beleza à qual os olhos do detetive não estavam acostumados, mas o que importava agora era achar o suspeito, embora o detetive não fizesse a mínima idéia do que faria depois de encontrá-lo.
O sol já brilhava quando o detetive passou pelo jardim e adentrou o hotel, e logo pode ver a mulher excessivamente magra da recepção, que ao vê-lo deu um meio-sorriso que parecia desafiar o investigador, ele aproximou-se a passos lentos com seu andar desleixado, apoiou-se na bancada da recepção, tirou o distintivo do bolso do paletó e mostrou-o à recepcionista dizendo:— Investigador do departamento de polícia da cidade, preciso saber se um suspeito de assassinato está hospedado aqui. A mulher sorriu e contou que o último hospede a dar entrada fora Frank Reynolds, no quarto 402. O detetive seguiu para as escadas sem pegar as chaves do 402 com a recepcionista, que alegou não ter uma cópia da chave.
O investigador policial subiu rapidamente as escadas, e logo seus sapatos arrastavam-se pelo corredor do quarto andar, o atrito entre a sola dos sapatos e o chão de madeira produzia um barulho extremamente desagradável.
Em seu quarto de hotel Frank observava a paisagem de sua sacada, quando ouviu uma batida na porta, uma batida como outra qualquer, mas que o fez despertar de seu estado de contemplação, e por um momento quase imperceptível ele esqueceu-se do que havia lá fora, esquecera-se da cidade, de White Peaks, e do próprio hotel Berghof, era como se toda a existência se resumisse àquele quarto e àquele momento, mas uma segunda batida tirou-lhe aquela certeza bizarra e o fez andar até a porta, e abri-la sem nem mesmo perguntar quem estava do outro lado.
O detetive empurrou a porta antes que Frank a abrisse por completo, e apontou seu revólver magnum para o suspeito. Frank levantou instintivamente as mãos. O detetive fitou o homem e confirmou sua identidade: —Você é Franklyn Reynolds?
E Frank, em um estado de choque, respondeu que sim. E acrescentou: — E você, quem é? O detetive abaixou a arma e tirou do bolso do blazer o distintivo e disse: —Investigador do Departamento de Polícia da Cidade. Me chame de detetive. Frank acenou positivamente com a cabeça e observou o detetive caminhar em silêncio até a garrafa com líquido desconhecido sobre a mesa, servir-se e oferecer à ele um gole. Frank aceitou e bebericou do líquido de gosto forte.
Com um gesto de mão o detetive chamou Frank para acompanhá-lo até a sacada, e Frank o seguiu. O detetive tinha um semblante calmo, e Frank tentava transparecer o mesmo, embora por dentro ele sentisse um turbilhão de emoções confusas. O detetive hesitou por um momento antes de dizer: — Você é suspeito do assassinato de Eleanor Goldberg Reynolds, mas não se preocupe, eu não preciso saber se foi você. Frank balbuciou: — Então o que você quer? O detetive contemplou por um momento a bela vista antes de discursar: — Você é o primeiro a fugir da cidade e eu vim atrás de você. Nossa ausência pode parecer descartável, mas não é. A cidade precisa de cada um de nós. E ela fará o que for preciso pra nos ter de volta.
Frank não parecia assustado, mas ele sabia o que havia feito. Ele foi corajoso ao fugir, mas precisaria pagar. Após um longo silêncio o detetive suspirou e disse:— Você foi corajoso, fez o que ninguém tivera ousado até agora. Mas aquela terrível solidão na cidade acaba nos corroendo e nos contagiando. Mas aqui nós estamos seguros, por enquanto.
O detetive caminhou até a porta e Frank sentiu que precisava seguí-lo. Eles desceram as escadas em silêncio e quando chegaram ao salão principal a recepcionista pareceu surpresa ao vê-los juntos. Os homens passaram pela grande porta e o detetive virou-se para trás, e Frank pode ver um cintilar nos olhos do homem de terno, um lampejo de loucura. O detetive lentamente tirou o revolver do coldre e apontou-o para algum lugar que Frank não podia ver. De repente um estrondo quase estorou os tímpanos de Frank, mas atrás dele, de modo quase imperceptível, a recepcionista soltou um grito, um último grito, enquanto seu corpo caía no piso de madeira, o detetive seguiu para sua viatura enquanto Frank, ainda abalado pelo barulho, o seguiu, mesmo cambaleando ele puxou o homem de terno e ajoelhou-se perante ele. Lágrimas começaram a escorrer de seu rosto marcado pelo tempo, o homem do terno, ainda sendo puxado por Frank, permaneceu impassível. Frank em meio de soluços começou a murmurar:— Foi culpa minha. Eu a matei. Eu matei Eleanor.... Eu simplesmente não podia mais viver com aquilo, aquela dor, ver o quanto a cidade a transformara em uma sombra do que ela já fora, eu não podia deixá-la viver! Agora me mate!! Só não me leve para a Cidade....
O homem de terno olhou longamente para Frank. Seus olhos brilharam ao sentir a dor alheia. Ele novamente ergueu o revólver, apontando-o para Frank, e por um tempo os dois ficaram assim imóveis, esperando por algo, alguma intervenção que nunca veio. O braço do detetive dobrou-se apontando o revolver para cima e depois para sua própria cabeça. Frank levantou os olhos e pode ver a figura com suas vestes negras segurando firme a arma. O apertar do gatilho era inevitável. O homem de terno sorriu para Frank, e virando os olhos pro alto ele atirou. O sangue manchou o belo jardim do berghof e o barulho tiro ecoou mais uma vez pelo vale, o detetive foi ao chão, e Frank tirou as mãos que o puxava. O sobrevivente levantou -se e observou o corpo inerte do detetive, na pacata cidadezinha a vida seguia, assim como o vento continuava a balançar as árvores no bosque. E a Cidade estava de luto, sem nem mesmo saber o porquê.