O sol batendo na pele lhe dava uma
sensação há muito tempo esquecida, aquela sensação forte, confusa, que era um
misto de redenção e alegria, o sentimento de que valia à pena viver. Atrás de
si o barulho das máquinas e da tripulação era incessante, mas não o incomodava,
por enquanto ele apenas olhava pra frente, esperando que no meio da multidão
barulhenta do cais houvesse alguém de quem se despedir. Ele puxou a boina para
frente tentando, inutilmente, proteger os olhos do sol e foi durante esse
movimento, que surgiram, sem que ele visse, algumas figuras familiares.
Henry parecia não acreditar ao ver o
amigo preparado para partir, talvez em definitivo, e disse em um tom estranho,
tentado esconder a súbita melancolia que tomava conta dele: - Mulligan! Depois de
tantos anos, cá estamos, finalmente livrou-se de mim, não é? Mulligan respondeu
com um sorriso tímido e um silêncio frio. Henry continuou: - Sabe, nunca
imaginei que iríamos nos separar, mas agora a nossa amizade parece tão
distante. Não quero te prender aqui, na verdade queria mesmo era te entregar
isto... E Henry deu a Mulligan um saco de papel que continha alguns charutos,
uns enlatados, e no fundo algo metálico, frio o qual Mulligan precisou trazer
ao sol para desvendar o que era. – Um revolver, disse Henry, só Deus sabe o
tipo de barbaridade que há nas terras do outro lado. Pronunciou isto fazendo um
leve aceno de cabeça ao oceano e Mulligan virou a cabeça para ter certeza de
que o Atlântico ainda estava lá, pronto para levá-lo dali, mas assim que voltou
os olhos disse: - Obrigado, Henry, você foi sempre um bom amigo, não posso
prometer escrever-lhe, mas posso prometer que sempre me lembrarei de você. Um
abraço fraternal foi dado e antes que Henry caminhasse silenciosamente pra fora
dali, foi possível ver uma lágrima lhe teimando em fugir dos olhos. Mulligan
observou-o se tornar apenas mais um na multidão. Então que percebeu quem o
esperava ali pacientemente. Era uma mulher, linda, seus cabelos castanhos
escuros e sua pele morena. Esboçou um sorriso quando Mulligan a olhou e disse:
- Olá, Mulligan, senti que tinha que vir... O homem de boina tinha várias
dúvidas, mas nenhuma delas saiu-lhe pela boca, mas como que lendo sua mente a
mulher disse: - O’Hara me contou que você estava indo, pedi-lhe o dia, a hora e
o local e aqui estou.
Maldito O’Hara pensou Mulligan, será
que não podia ficar quieto. Cinco anos se passaram e ele ainda estremecia em um
espasmo involuntário ao vê-la, típico dos apaixonados... Ele tinha raiva, dela,
de si mesmo e do maldito O’Hara, velho fofoqueiro. Mas a raiva foi levada como
que em uma onda pela voz leve e bela da jovem: - Talvez não devesse ter vindo,
afinal cinco anos é muito tempo, mal nos conhecemos mais... Mas disse a mim
mesma que precisava vir, precisava ter certeza de que você iria que você não
mais estaria aqui. Por Deus, Mulligan diga alguma coisa!! Ele não se abalou com
a sua impaciência apenas disse rispidamente: - Adeus... E boa sorte. Virou-se e
subiu até o navio com uma sensação de alívio, ela ainda tentou gritar algo, mas
as palavras se perderam em meio ao barulho de seus pensamentos.