domingo, 26 de agosto de 2012

Despedidas São Sempre Curtas Demais


O sol batendo na pele lhe dava uma sensação há muito tempo esquecida, aquela sensação forte, confusa, que era um misto de redenção e alegria, o sentimento de que valia à pena viver. Atrás de si o barulho das máquinas e da tripulação era incessante, mas não o incomodava, por enquanto ele apenas olhava pra frente, esperando que no meio da multidão barulhenta do cais houvesse alguém de quem se despedir. Ele puxou a boina para frente tentando, inutilmente, proteger os olhos do sol e foi durante esse movimento, que surgiram, sem que ele visse, algumas figuras familiares.
Henry parecia não acreditar ao ver o amigo preparado para partir, talvez em definitivo, e disse em um tom estranho, tentado esconder a súbita melancolia que tomava conta dele: - Mulligan! Depois de tantos anos, cá estamos, finalmente livrou-se de mim, não é? Mulligan respondeu com um sorriso tímido e um silêncio frio. Henry continuou: - Sabe, nunca imaginei que iríamos nos separar, mas agora a nossa amizade parece tão distante. Não quero te prender aqui, na verdade queria mesmo era te entregar isto... E Henry deu a Mulligan um saco de papel que continha alguns charutos, uns enlatados, e no fundo algo metálico, frio o qual Mulligan precisou trazer ao sol para desvendar o que era. – Um revolver, disse Henry, só Deus sabe o tipo de barbaridade que há nas terras do outro lado. Pronunciou isto fazendo um leve aceno de cabeça ao oceano e Mulligan virou a cabeça para ter certeza de que o Atlântico ainda estava lá, pronto para levá-lo dali, mas assim que voltou os olhos disse: - Obrigado, Henry, você foi sempre um bom amigo, não posso prometer escrever-lhe, mas posso prometer que sempre me lembrarei de você. Um abraço fraternal foi dado e antes que Henry caminhasse silenciosamente pra fora dali, foi possível ver uma lágrima lhe teimando em fugir dos olhos. Mulligan observou-o se tornar apenas mais um na multidão. Então que percebeu quem o esperava ali pacientemente. Era uma mulher, linda, seus cabelos castanhos escuros e sua pele morena. Esboçou um sorriso quando Mulligan a olhou e disse: - Olá, Mulligan, senti que tinha que vir... O homem de boina tinha várias dúvidas, mas nenhuma delas saiu-lhe pela boca, mas como que lendo sua mente a mulher disse: - O’Hara me contou que você estava indo, pedi-lhe o dia, a hora e o local e aqui estou.
Maldito O’Hara pensou Mulligan, será que não podia ficar quieto. Cinco anos se passaram e ele ainda estremecia em um espasmo involuntário ao vê-la, típico dos apaixonados... Ele tinha raiva, dela, de si mesmo e do maldito O’Hara, velho fofoqueiro. Mas a raiva foi levada como que em uma onda pela voz leve e bela da jovem: - Talvez não devesse ter vindo, afinal cinco anos é muito tempo, mal nos conhecemos mais... Mas disse a mim mesma que precisava vir, precisava ter certeza de que você iria que você não mais estaria aqui. Por Deus, Mulligan diga alguma coisa!! Ele não se abalou com a sua impaciência apenas disse rispidamente: - Adeus... E boa sorte. Virou-se e subiu até o navio com uma sensação de alívio, ela ainda tentou gritar algo, mas as palavras se perderam em meio ao barulho de seus pensamentos.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Cada conto é sempre uma sintese das minhas experiências e ao tipo de cultura que tenho me exposto

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