domingo, 26 de agosto de 2012

Despedidas São Sempre Curtas Demais


O sol batendo na pele lhe dava uma sensação há muito tempo esquecida, aquela sensação forte, confusa, que era um misto de redenção e alegria, o sentimento de que valia à pena viver. Atrás de si o barulho das máquinas e da tripulação era incessante, mas não o incomodava, por enquanto ele apenas olhava pra frente, esperando que no meio da multidão barulhenta do cais houvesse alguém de quem se despedir. Ele puxou a boina para frente tentando, inutilmente, proteger os olhos do sol e foi durante esse movimento, que surgiram, sem que ele visse, algumas figuras familiares.
Henry parecia não acreditar ao ver o amigo preparado para partir, talvez em definitivo, e disse em um tom estranho, tentado esconder a súbita melancolia que tomava conta dele: - Mulligan! Depois de tantos anos, cá estamos, finalmente livrou-se de mim, não é? Mulligan respondeu com um sorriso tímido e um silêncio frio. Henry continuou: - Sabe, nunca imaginei que iríamos nos separar, mas agora a nossa amizade parece tão distante. Não quero te prender aqui, na verdade queria mesmo era te entregar isto... E Henry deu a Mulligan um saco de papel que continha alguns charutos, uns enlatados, e no fundo algo metálico, frio o qual Mulligan precisou trazer ao sol para desvendar o que era. – Um revolver, disse Henry, só Deus sabe o tipo de barbaridade que há nas terras do outro lado. Pronunciou isto fazendo um leve aceno de cabeça ao oceano e Mulligan virou a cabeça para ter certeza de que o Atlântico ainda estava lá, pronto para levá-lo dali, mas assim que voltou os olhos disse: - Obrigado, Henry, você foi sempre um bom amigo, não posso prometer escrever-lhe, mas posso prometer que sempre me lembrarei de você. Um abraço fraternal foi dado e antes que Henry caminhasse silenciosamente pra fora dali, foi possível ver uma lágrima lhe teimando em fugir dos olhos. Mulligan observou-o se tornar apenas mais um na multidão. Então que percebeu quem o esperava ali pacientemente. Era uma mulher, linda, seus cabelos castanhos escuros e sua pele morena. Esboçou um sorriso quando Mulligan a olhou e disse: - Olá, Mulligan, senti que tinha que vir... O homem de boina tinha várias dúvidas, mas nenhuma delas saiu-lhe pela boca, mas como que lendo sua mente a mulher disse: - O’Hara me contou que você estava indo, pedi-lhe o dia, a hora e o local e aqui estou.
Maldito O’Hara pensou Mulligan, será que não podia ficar quieto. Cinco anos se passaram e ele ainda estremecia em um espasmo involuntário ao vê-la, típico dos apaixonados... Ele tinha raiva, dela, de si mesmo e do maldito O’Hara, velho fofoqueiro. Mas a raiva foi levada como que em uma onda pela voz leve e bela da jovem: - Talvez não devesse ter vindo, afinal cinco anos é muito tempo, mal nos conhecemos mais... Mas disse a mim mesma que precisava vir, precisava ter certeza de que você iria que você não mais estaria aqui. Por Deus, Mulligan diga alguma coisa!! Ele não se abalou com a sua impaciência apenas disse rispidamente: - Adeus... E boa sorte. Virou-se e subiu até o navio com uma sensação de alívio, ela ainda tentou gritar algo, mas as palavras se perderam em meio ao barulho de seus pensamentos.

quinta-feira, 1 de março de 2012

A cidade 6— A Fuga

O carro acelerava rapidamente, Frank saíra com pressa do seu apartamento, embora chamar aquele chiqueiro de apartamento fosse mera bondade, juntara suas coisas como pode, ele não podia mais viver ali naquela Cidade que o tornara um homem sem esperança e sem escrúpulos.
A estrada estava vazia e olhando ao retrovisor, ele podia ver a sombra odiável dos grandes prédios da cidade, monumentos à capacidade do homem de gastar esforço e dinheiro com marcos temporários, versões modernas das pirâmides de gizé, mas aquilo não era mais uma realidade para ele, era necessário um recomeço, e por isso Frank ia em direção ao uma nova cidade, onde não havia essa sombra que paira sobre a Cidade, sombra da perda da humanidade.
Ao lado da estrada ladeada por belos campos verdes que quase ofuscavam a visão acostumada com o cinza metropolitano de Frank, havia uma placa verde que indicava em letras brancas: "White Peaks, 320 km". Era o destino de Frank, uma pacata cidadezinha, onde ele poderia recomeçar, depois daquela noite no parque, Frank não podia mais ficar naquela cidade, o conformismo nojento contraído e repassado por todos o deixava louco, tornando as crianças monstros egoístas, sem qualquer traço de humanidade, e ele não queria tornar-se mais um deles. Sua pressa fora tanta que ele simplesmente jogara suas coisas no porta-malas do carro. Ele distanciava-se lentamente da cidade, e era estranho perceber a ausência de carros na estrada que ia em direção contrária à cidade, era mais um dos mistérios da cidade,o jeito como aquele lugar prendia as pessoas em uma vida miserável que se esvai como a areia desliza por entre os dedos. Mas talvez o problema não fosse a Cidade, como dizia o ditado: "O inferno são as pessoas".
Depois de algumas horas e muitos pensamentos sobre a cidade, Frank chegara ao destino, na entrada da cidade havia um portal feito de madeira do qual pendia uma placa de mesmo material, onde lia-se: "Bem-vindo a White Peaks". Passado o portal seguia-se por uma estrada ladeada por pinheiros, abetos e todo tipo de árvores que Frank desconhecia devido à vida na Cidade, e o primeiro sinal de habitação humana era um posto de gasolina. Frank olhou o indicador de gasolina no painel e decidiu parar para abastecer.
O posto era coberto por uma estrutura de ferro colorida e possuía duas bombas de gasolina que pareciam antigas, pintadas de um verde desbotado. Assim que parou o carro um homem apareceu, era um caipira típico na visão estereotipada de Frank, vestia um macacão azul e tinha um chapéu de mesma cor, ambas as peças aparentavam já haverem passado por anos de trabalho duro, mas suas impressões foram dissolvidas quando o homem no macacão perguntou com seu sotaque arrastado:- Posso ajudar? Frank respondeu:- Complete o tanque, por favor. E o homem no macacão começou a manusear a bomba.
De repente, o homem sem virar-se para Frank perguntou:- Pelo seu sotaque você vem da cidade, não é? Não temos muitos visitantes de lá, mas diga lá: vem aqui a trabalho ou de férias? Frank esboçou um sorriso e respondeu:- Digamos que estou me mudando. E à propósito, onde eu acho um lugar bom e barato para ficar aqui em white peaks? O frentista que tirava a mangueira do bocal do tanque do carro, respondeu em tom pensativo: -Tem um hotel depois da rua principal, o nome é Bhergof hotel, eles te dão um desconto se você disser que o Bill do posto de gasolina te mandou lá.
Após pagar a gasolina e despedir-se de Bill, Frank acelerou o carro até chegar na rua principal. Era estranho sentir aquele ar puro, um cheiro de terra úmida, e ouvir o vento mexer as folhas das árvores era uma experiência tão nova para Frank que ele quase não pode perceber as construções da rua principal, entre diversas lojas havia um prédio de andar único, com portas de madeira e vidro, o prédio era relativamente novo, Frank calculava que teria sido construído no início dos anos de 1970. Na fachada havia uma estrela em metal dourado e letras brancas que diziam: "Delegacia de White Peaks", e dentro da estrela, em letras entalhadas no metal havia algum dizer em latim que Frank não conseguia distinguir, na verdade nunca tivera bons olhos, desde que se lembrava ele não enxergava muito bem, mas por diversos motivos pouco plausíveis, Frank nunca usara óculos.
Mais à frente havia uma construção ainda mais notável, era um prédio cinza, antigo, de dois andares, com uma fachada neoclássica que contava com duas colunas ao estilo grego segurando a marquise, no frontão estilizado lia-se: Prefeitura. Frank desviou o olhar e viu que em uma colina que estava atrás dessas construções havia uma igreja, feita de madeira e pintada de branco com uma cruz enorme em cima da igreja. E Frank estremeceu pensando que até ali naquela cidade tão ingênua havia quem se aproveitasse da boa vontade de seus habitantes, espalhando palavras e promessas falsas.
Ele continuou seguindo, a rua principal começava a fazer curvas e finalmente tornava-se uma subida estreita pavimentada com paralelepípedos que terminava em um elevado, já bem longe da delegacia e da prefeitura.
O carro foi subindo devagar, e Frank não esperava muito mais que isso, pois era um carro antigo, um daqueles carros dos anos 1970, que gastava mais gasolina do que corria. No "topo" da colina via-se um casarão de madeira que parecia antigo, mas estava tão bem cuidado que chegava a brilhar. Era o hotel Berghof, no pátio entrada havia um belo jardim com flores silvestres. Frank estacionou logo na frente do hotel que tinha cinco andares de altura e diversas janelas, havia também sacadas nos quartos do quarto e quinto andar. A porta, que estava aberta, era bela e igualmente de madeira, tinha aparência pesada e uma altura de quase três metros. Frank avançou pelo limiar, e na sua frente havia uma bancada e uma placa de metal pendurada que indicava ser a recepção.
Frank caminhou pelo salão, cujo teto e as paredes eram feitos de uma madeira mais clara do que aquela que havia no exterior da construção, e o piso era de um mármore branco com algumas formas geométricas pretas e pelo que Frank imaginava, não era o piso original do lugar. Havia uma mulher na bancada que recebeu prontamente o homem que entrava com um acalorado "Posso ajudá-lo?". Frank fez que sim com a cabeça e contou da indicação de Bill do posto, e surpreendeu-se com o preço baixo da estadia que a mulher o indicou, era entre 30 e 50 dólares. A atendente perguntou com um sorriso forçado enquanto mexia em seus cabelos cacheados e ruivos, tão falsos quanto seu sorriso:- Nós temos quartos com e sem sacadas, o senhor pode escolher entre a vista para a rua principal (a frente) e a vista para o bosque e as montanhas (atrás). Qual quarto o senhor deseja?
Frank seguira para o elevador, já com a chave de seu quarto que tinha vista para o bosque, era o 402, um dos quartos com sacada. O elevador era antigo, com uma porta pesada de um metal fosco, seu interior era feito de espelhos nas laterais que começavam na metade das pequenas paredes e iam até o teto, abaixo deles, as laterais eram decoradas com mármore branco com desenhos geométricos em tinta dourada. Mas toda a observação do esplendor do elevador acabou quando a porta se abriu no 4º andar, mostrando um corredor cujo piso era coberto em toda a sua extensão por um grande tapete que mesclava um vermelho claro com o verde e amarelo. As portas que davam para os quartos eram de uma madeira escura, quase negra e os números estavam entalhados em placas de metal antiquíssimas. O 402 não era exceção. A fechadura era antiga e encaixou-se perfeitamente na chave que Frank acabara de receber da recepcionista. A porta rangeu um pouco enquanto abria-se, e logo Frank pode ver o quarto. Havia carpete cinza em toda a extensão do piso, à esquerda encontrava-se a porta que dava para o banheiro, e avançando um pouco mais era possível ver a cama de solteiro que ficava encostada na parede e virada para a sacada. No seu lado direito Frank via um antigo móvel de madeira encostado na parede, sobre ele um espelho oval bem simples pendia na parede e ao seu lado uma poltrona de madeira com um forro vermelho que combinava com o papel de parede de mesma cor que havia no quarto.Havia ainda um criado-mudo ao lado da cama, onde encontrava-se um abajur que Frank duvidou que funcionasse, devido sua aparência extremamente antiga e ao seu lado, uma garrafa de vidro sobre uma bandeja de metal, guarnecida de copos, igualmente em vidro. A garrafa, sem nenhum rótulo, exibia um líquido que parecia whisky ou conhaque, Frank não tinha certeza, não era exatamente um conhecedor de bebidas, ele apenas as bebia.
Ele caminhou pelo quarto, deixando sua mala desorganizada em cima da cama, e foi até a sacada, que diferia do quarto por conservar um piso de madeira, assim como aquele que havia no hall de entrada. Havia ainda um parapeito de mesmo material, mas nada disso importava mais quando Frank pôs os olhos na paisagem harmônica que havia ali. Logo abaixo da colina onde situava-se o Berghof hotel havia um bosque que Frank não ousaria chamar de floresta devido à sua pequena área, e logo depois do bosque havia um lago, pequeno, mas ainda assim belo. As águas pareciam claras, mas Frank não podia ter certeza, não com aqueles seus olhos. A paisagem continuava, alternando entra descampados e bosques até reter-se em uma grande massa azulada, eram três montanhas, que se elevavam como deusas sobre a paisagem plana, nos picos era possível distinguir grandes pontos brancos, os quais Frank supôs serem neve, e mais embaixo haviam pequenos pontos verdes que Frank quase não conseguia ver, talvez fossem pinheiros ou coisa parecida, pensou ele.
Frank ficou parado na sacada por um bom tempo, tinha uma expressão idiota na sua face, como se fosse uma criança que assistia um desses shows de tv coloridos e sem sentido. Mas como se despertasse de um longo sono, tirou os braços que se apoiavam no parapeito e caminhou lentamente até a cama, aonde deixou-se cair, e embora o sol ainda brilhasse lá fora, Frank adormeceu por cima de sua mala sem se incomodar.
Ele acordou tonto, sua cabeça girava enquanto seu cérebro fazia a passagem das paisagens oníricas para o mundo real. Ele levantou caminhando até a porta, de onde vinha um som de batidas que o acordara. Do outro lado ouviu-se a voz da recepcionista:-Serviço de quarto. Frank abriu a porta sem computar a informação que seus ouvidos lhe passavam e deparou-se com a mulher magra de cabelos castanhos segurando uma bandeja com xícaras e um bule metálico, ele parou no limiar com uma expressão confusa, de modo que a recepcionista teve que pedir-lhe licença para entrar. A mulher deixou a bandeja em cima do móvel que havia a direita da porta e perguntou:— Sr. Reynolds, o que o senhor faz aqui em white peaks? Nós não costumamos receber visitantes da cidade. Frank disse enquanto servia-se do café que a recepcionista acabara de trazer:— Pode me chamar de Frank. E quanto ao que venho fazer aqui...—Ele fez uma pausa enquanto bebia o café— Eu realmente não sei, tudo que sei é que eu precisava sair de lá. A mulher de mãos esqueléticas sorriu debochadamente e perguntou — Como é lá na cidade? Frank com essas palavras finalmente saiu de seu estado de semi-consciência e olhou com olhos espantados para mulher que o fitava com olhos que tinham ainda o brilho da inocência e concluiu: — É o mais próximo do inferno que se pode chegar. A recepcionista espantada ameaçou dizer algo, mas saiu do quarto sem sequer se despedir, e Frank se perguntou se teria sido grosseiro não perguntar o nome da recepcionista, era um costume da cidade não saber o nome das pessoas. O sol ainda brilhava lá fora no céu azul, e Frank inferiu que seria final de tarde, mas não tinha relógio para precisar as horas.
Ainda com a xícara de ca fé na mão, ele tentava lembrar do sonho que tivera, mas tudo que podia evocar eram lembranças soltas, cinzas, ele via prédios, era a cidade, mas ao mesmo tempo não era, eram prédios estranhos, construções que se curvavam para a rua e brotavam do solo como plantas, suas lembranças foram rapidamente deixadas de lado quando Frank percebeu que não havia comido nada o dia todo, ele resolveu sair do hotel e ir até algum restaurante na rua principal. Assim que abriu a porta do quarto um impulso o fez apalpar os bolsos, tanto da calça, quanto do casaco que ele sequer havia tirado para dormir, tentando achar algo que ele não sabia bem o que era, mas nos seus bolsos não havia nada, exatamente como ele saíra da cidade.
O primeiro restaurante avistado por Frank tinha letreiros luminosos que o nomeavam como Restaurante do Lenhador, apesar do nome, Frank não hesitou em entrar, e sentou-se na última mesa, as outras estavam parcialmente ocupadas por todo tipo de faces estranhas, homens de barba e mulheres que se vestiam como se estivessem nos anos 60, mas a fome era mais importante do que a observação do meio, então pediu à garçonete um hambúrguer com fritas, o qual, assim que servido, ele devorou rapidamente. Frank passou algum tempo ainda observando os outros clientes do "Lenhador", mas nenhum o impressionou tanto quanto a jovem mulher que cuidava do balcão, tinha estatura mediana, longos cabelos castanhos escuros e olhos de um tom esverdeado que destoavam do uniforme vermelho que usava, mas Frank logo tirou os olhos dela, ele sabia que era velho o suficiente para ser pai daquela mulher, e sabia que nunca fora bonito, talvez até por isso tivesse se tornado o homem que tira as fotos, ao invés de aparecer nelas.
Frank era um fotógrafo e um jornalista, na cidade trabalhou por muitos anos em grandes jornais, ele se lembrava com saudade dos tempos em que tudo que os jornais queriam era a verdade, nada de histórias inventadas, palavras que não foram ditas ou pessoas que não existiam, apenas a verdade. Mas nos últimos anos, aparentemente a verdade tornara-se pesada demais para os leitores, à medida que a cidade caía nas sombras do crime e da corrupção, os leitores preferiam abandonar as reportagens sérias e correr para o sensacionalismo barato focado em sub-celebridades. E Frank tornou-se obsoleto com suas reportagens reais, ele foi demitido e estava desempregado desde então. Quanto a sua subsistência, ele fazia alguns trabalhos, tirava fotos, ensaios dos mais variados, e conseguia o suficiente para manter-se na espelunca infestada de insetos que era seu apartamento.
As lembranças e os pensamentos foram deixados quando a bela mulher do balcão aproximou-se com um sorriso no rosto e olhando para Frank disse:— Vai querer mais alguma coisa senhor? Frank balançou a cabeça em sinal negativo sem sequer levantar os olhos para a mulher. Ele levantou-se depois de pagar a conta e murmurou um obrigado.
No caminho de volta para o berghof, ele desviou-se e foi até ao pequeno bosque que ele vira pela sacada de seu quarto de hotel. O sol ameaçava se pôr, tornando atmosfera ainda mais bela, o céu tinha um tom róseo e próximo da linha do horizonte era de um laranja forte. O silêncio seria total não fosse a respiração e o palpitar do coração de Frank, não havia barulho dos pássaros de quando ele chegara, e nem sequer era possível ouvir o vento batendo nas árvores. Frank seguiu uma trilha que adentrava pelo bosque, as árvores tinham algo de místico, elevavam-se de tal modo que mal era possível ver o céu, eram como os prédios da cidade, apenas careciam do terror que tais prédios inspiravam nele.
A trilha logo desapareceu, junto com as árvores, dando lugar a uma clareira onde havia um pequeno lago de águas de um azul brilhante, mas até mesmo o lago era silencioso e Frank ao notá-lo, pensou no quão diferente o silêncio dali era diferente do barulho da cidade, e chegou à triste conclusão que ambos exalavam indiferença, embora muitas vezes o barulho infernal da cidade parecesse clamar pela vida de cada um dos habitantes.


O telefone tocava, um barulho agudo que estremecia a cabeça do homem que acordava aos poucos, ele levantou-se, arrastou os pés pelo corredor e atendeu o velho telefone branco( que devido aos anos já tornara-se bege), a voz no outro lado da linha era grave e parecia cansada: —Detetive, precisamos de você numa cena do crime na Rua Callaway. O homem que acabara de acordar arrastou as palavras de modo indiferente: —Certo comissário, estou indo. O recém-desperto desligou o telefone e foi até o guarda-roupa, retirou maquinalmente um terno surrado de lá, vestiu-o e saiu porta afora, sem nem mesmo perceber que eram três da manhã.
Em outros dia ele talvez não atendesse o chamado, pois sabia que não importava se ele investigasse ou não os crimes, os casos seriam arquivados ou deixados de lado pela justiça falha da cidade. Mas algo o impeliu a sair de casa, talvez fosse tivesse ligado ao fato de seu apartamento parecer-se mais com um chiqueiro do que com um lar aconchegante.
A rua estava escura e as poucas lâmpadas acesas emanavam uma luz amarela que não atravessava a neblina da madrugada, dando à tudo um aspecto fantasmagórico. O detetive foi andando até a cena do crime, já que ele não possuía um carro e a Rua Callaway não era tão distante. A cidade nunca parava, nem mesmo àquela hora podia livrar-se de sua respiração tísica, formada pela harmonia entre buzinas, sirenes, máquinas e gritos indistintos. O caminhar do homem de terno era vacilante devido ao sono e ele decidiu que seria melhor comprar um copo de café no caminho, e foi o que fez. Alguns minutos depois, lá estava ele na cena do crime com um copo de café pela metade na mão.
O lugar não era muito diferente de outras cenas de crimes, era um apartamento velho feito talvez no início do século passado, o papel de parede estava rasgado, a mobília era antiga e coberta por uma camada de poeira, em cima de um tapete desbotado havia o corpo de uma mulher. Mas o detetive espantou-se com a presença de um policial de farda na cena do crime. O policial estava também sonolento e assim que se deu conta da presença do detetive começou a responder perguntas que não foram feitas: — Eleanor Goldberg Reynolds, 36 anos, divorciada, sem filhos, esse apartamento está registrado no nome do ex-marido Franklin Reynolds, a central já pesquisou e concluiu que Frank saiu da Cidade. O policial pronunciou essas últimas palavras com temor nos olhos, e o detetive as ouviu com uma apreensão ainda maior, um suspeito havia fugido, isso nunca havia acontecido durante todo o seu serviço no departamento de polícia, talvez pelo poder de atração e domínio da cidade, talvez pela certeza da impunidade, os suspeitos nunca fugiam.
O detetive aproximou-se do corpo estendido no tapete, era uma mulher que talvez fosse bonita em vida, mas agora seu rosto estava desfigurado e o corpo entreva em estado de decomposição, provavelmente havia morrido há um dia. Os traumas no rosto foram causados provavelmente por algum objeto metálico, talvez um cano ou algo assim, no tapete havia algumas pílulas espalhadas, anti-depressivos talvez. O resto do corpo estava intacto. No apartamento não restavam pistas de um possível assassinato. Os caras da perícia só iriam chegar depois do meio-dia, segundo o policial. O detetive pediu as chaves da viatura para o policial sem dar maiores explicações e depois de conseguí-las saiu porta afora.
Enquanto o detetive dava partida no carro velho da polícia, ele pensava no caso, era estranho um suspeito fugir mesmo que fosse o culpado, afinal —pensava o detetive— ninguém escapa da cidade. Por mais que investigar a casa da vítima parecesse promissor, algo instigava o homem do terno surrado a buscar o fugitivo. Pelo rádio da viatura, ele pediu informações da central sobre esse tal Franklin Reynolds e uma voz abafada pelo chiado do rádio contou que o suspeito não tinha ficha criminal e deu sua descrição física: Era um homem de 43 anos, cabelos castanhos e 1,75 metros de altura. O detetive inferiu por essa descrição que seria difícil achá-lo na cidade, pois quase metade da população batia com aquela descrição.
Era preciso achar tal sujeito, e o detetive tinha um palpite para aonde ele teria fugido. Pelo mapa já amarelado que havia na viatura ele identificou o possível esconderijo: White Peaks, uma pequena cidade, que era estranhamente, apesar de estar há mais de 300 km de distância, o vilarejo mais próximo da cidade, no mapa o detetive só divisava campos vazios ao redor da metrópole, mas ele não se reteu por muito tempo nessa estranha descoberta, era preciso o quanto antes achar o suspeito, embora o próprio detetive duvidasse do envolvimento de Frank no assassinato. A viagem até White Peaks seria grande, e era também a primeira vez que o detetive sairia da cidade em todos os seus anos no departamento de polícia, é claro que ele havia saído da cidade quando criança para passar as férias na casa dos avós ao norte do estado, mas desde que entrara no departamento não havia nem sequer passado pelas estradas que saíam da cidade.
A viagem foi longa e vazia, pois o detetive dirigiu até o sol raiar, e em todo o caminho não pode ver nenhum carro na estrada que levava à White Peaks, e preferiu não perguntar-se porque a estrada estava tão vazia, e talvez não o tenha feito justamente por saber a resposta. Chegando na cidade havia um posto de gasolina, onde um homem de macacão parecia dormir em uma cadeira de balanço, o detetive tocou a buzina da velha viatura, o que causou um sobressalto no homem que dormia e rapidamente disse com o ar e o sotaque simplório: — Posso ajudar? O detetive demorou-se analisando aquela figura estranha e logo depois perguntou se havia visto um homem de cabelos castanhos, 1,75 metros de altura. O detetive tremeu ao ouvir a resposta que ele já conhecia, sim, o frentista havia visto um homem assim e contou que indicara a ele o Berghof hotel para sua estadia. O detetive agradeceu e seguiu em frente sem nem mesmo perguntar o endereço do tal hotel, pois o antigo mapa tinha uma indicação em letras maiúsculas da localização do Berghof. O investigador e a sua viatura chegaram rapidamente à colina em que erguia-se o belo marco arquitetônico que era o hotel, uma beleza à qual os olhos do detetive não estavam acostumados, mas o que importava agora era achar o suspeito, embora o detetive não fizesse a mínima idéia do que faria depois de encontrá-lo.
O sol já brilhava quando o detetive passou pelo jardim e adentrou o hotel, e logo pode ver a mulher excessivamente magra da recepção, que ao vê-lo deu um meio-sorriso que parecia desafiar o investigador, ele aproximou-se a passos lentos com seu andar desleixado, apoiou-se na bancada da recepção, tirou o distintivo do bolso do paletó e mostrou-o à recepcionista dizendo:— Investigador do departamento de polícia da cidade, preciso saber se um suspeito de assassinato está hospedado aqui. A mulher sorriu e contou que o último hospede a dar entrada fora Frank Reynolds, no quarto 402. O detetive seguiu para as escadas sem pegar as chaves do 402 com a recepcionista, que alegou não ter uma cópia da chave.
O investigador policial subiu rapidamente as escadas, e logo seus sapatos arrastavam-se pelo corredor do quarto andar, o atrito entre a sola dos sapatos e o chão de madeira produzia um barulho extremamente desagradável.
Em seu quarto de hotel Frank observava a paisagem de sua sacada, quando ouviu uma batida na porta, uma batida como outra qualquer, mas que o fez despertar de seu estado de contemplação, e por um momento quase imperceptível ele esqueceu-se do que havia lá fora, esquecera-se da cidade, de White Peaks, e do próprio hotel Berghof, era como se toda a existência se resumisse àquele quarto e àquele momento, mas uma segunda batida tirou-lhe aquela certeza bizarra e o fez andar até a porta, e abri-la sem nem mesmo perguntar quem estava do outro lado.
O detetive empurrou a porta antes que Frank a abrisse por completo, e apontou seu revólver magnum para o suspeito. Frank levantou instintivamente as mãos. O detetive fitou o homem e confirmou sua identidade: —Você é Franklyn Reynolds?
E Frank, em um estado de choque, respondeu que sim. E acrescentou: — E você, quem é? O detetive abaixou a arma e tirou do bolso do blazer o distintivo e disse: —Investigador do Departamento de Polícia da Cidade. Me chame de detetive. Frank acenou positivamente com a cabeça e observou o detetive caminhar em silêncio até a garrafa com líquido desconhecido sobre a mesa, servir-se e oferecer à ele um gole. Frank aceitou e bebericou do líquido de gosto forte.
Com um gesto de mão o detetive chamou Frank para acompanhá-lo até a sacada, e Frank o seguiu. O detetive tinha um semblante calmo, e Frank tentava transparecer o mesmo, embora por dentro ele sentisse um turbilhão de emoções confusas. O detetive hesitou por um momento antes de dizer: — Você é suspeito do assassinato de Eleanor Goldberg Reynolds, mas não se preocupe, eu não preciso saber se foi você. Frank balbuciou: — Então o que você quer? O detetive contemplou por um momento a bela vista antes de discursar: — Você é o primeiro a fugir da cidade e eu vim atrás de você. Nossa ausência pode parecer descartável, mas não é. A cidade precisa de cada um de nós. E ela fará o que for preciso pra nos ter de volta.
Frank não parecia assustado, mas ele sabia o que havia feito. Ele foi corajoso ao fugir, mas precisaria pagar. Após um longo silêncio o detetive suspirou e disse:— Você foi corajoso, fez o que ninguém tivera ousado até agora. Mas aquela terrível solidão na cidade acaba nos corroendo e nos contagiando. Mas aqui nós estamos seguros, por enquanto.
O detetive caminhou até a porta e Frank sentiu que precisava seguí-lo. Eles desceram as escadas em silêncio e quando chegaram ao salão principal a recepcionista pareceu surpresa ao vê-los juntos. Os homens passaram pela grande porta e o detetive virou-se para trás, e Frank pode ver um cintilar nos olhos do homem de terno, um lampejo de loucura. O detetive lentamente tirou o revolver do coldre e apontou-o para algum lugar que Frank não podia ver. De repente um estrondo quase estorou os tímpanos de Frank, mas atrás dele, de modo quase imperceptível, a recepcionista soltou um grito, um último grito, enquanto seu corpo caía no piso de madeira, o detetive seguiu para sua viatura enquanto Frank, ainda abalado pelo barulho, o seguiu, mesmo cambaleando ele puxou o homem de terno e ajoelhou-se perante ele. Lágrimas começaram a escorrer de seu rosto marcado pelo tempo, o homem do terno, ainda sendo puxado por Frank, permaneceu impassível. Frank em meio de soluços começou a murmurar:— Foi culpa minha. Eu a matei. Eu matei Eleanor.... Eu simplesmente não podia mais viver com aquilo, aquela dor, ver o quanto a cidade a transformara em uma sombra do que ela já fora, eu não podia deixá-la viver! Agora me mate!! Só não me leve para a Cidade....
O homem de terno olhou longamente para Frank. Seus olhos brilharam ao sentir a dor alheia. Ele novamente ergueu o revólver, apontando-o para Frank, e por um tempo os dois ficaram assim imóveis, esperando por algo, alguma intervenção que nunca veio. O braço do detetive dobrou-se apontando o revolver para cima e depois para sua própria cabeça. Frank levantou os olhos e pode ver a figura com suas vestes negras segurando firme a arma. O apertar do gatilho era inevitável. O homem de terno sorriu para Frank, e virando os olhos pro alto ele atirou. O sangue manchou o belo jardim do berghof e o barulho tiro ecoou mais uma vez pelo vale, o detetive foi ao chão, e Frank tirou as mãos que o puxava. O sobrevivente levantou -se e observou o corpo inerte do detetive, na pacata cidadezinha a vida seguia, assim como o vento continuava a balançar as árvores no bosque. E a Cidade estava de luto, sem nem mesmo saber o porquê.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Encontros de Verdades

Era o começo de uma noite fria de outono, o céu era nublado e o vento frio atingia os ossos de Andy. O charuto Maria Mancini não o ajudava a esquentar-se, apesar do olhar insistente com o qual ele fitava o charuto, esperando que dele viesse algo diferente, mas havia apenas seu gosto e cheiro peculiar que agradavam-lhe muito. Tirando os olhos do charuto, Andy rolou os olhos pela paisagem de forma cansada e foi surpreendido ao ver uma mulher, cuja pele branca contrastava com o tom cinza que reinava na noite nublada, ela parecia emanar uma luz, assim como ele lembrava dela na primeira vez que se viram, uma lembrança que tornara-se enevoada, pelo efeito de seu subconsciente forçando-o a esquecer o sofrimento que ela lhe causara. Seu coração disparava agora, mas era preciso ir até lá, era inevitável. Tirando uma pequena garrafa do bolso, ele se dirigiu até ela, e antes de alcançá-la, já havia esgotado o conteúdo do recipiente, ele estava em estado tal que nem mesmo lembrava o que havia colocado naquele recipiente, talvez whisky, talvez vodka, não tinha certeza.
Andy aproximou-se e notou que ela tinha o olhar perdido, como muitas vezes ele já havia notado. Ele disse a ela enquanto sorria:- Oi, há quanto tempo, não? Ela virou-se ainda com um olhar perdido e o fitou por alguns segundos sorrindo, um sorriso belo, mas que fora sempre um mistério para Andy, parecia compassivo e ao mesmo tempo falso e debochado, era quase como se o significado do seu sorriso fosse regido por aquilo que seu observador acreditasse significar. Ela disse em tom despreocupado:-Oi. Realmente faz muito tempo. E ela então o abraçou, ou pelo menos era o que pareceu a Andy, mas a realidade trabalha de maneiras misteriosas. Ele tirou o charuto da boca ameaçando jogá-lo fora, porém ela interveio dizendo:- Não precisa, eu também fumo agora. E ela tirou um cigarro de um maço que estava na sua bolsa, enquanto o acendia, ele pode notar os olhos dela, haviam-se passado meses, talvez até anos desde que eles se encontraram pela última vez, mas ele ainda lembrava do tom de seus olhos fugidios: verdes com uma aura azul, quase que imperceptível aos olhares casuais, mas que sempre estava presente quando eram vistos com olhos admiradores. Andy continuou a conversa:- Você realmente mudou desde a última vez, eu quero dizer, você não fumava, e agora você parece tão diferente, mas é claro que olhares não dissecam a alma - ela esboçou um sorriso - . Mas você ainda está com aquele cara? Até hoje ele lembrava do dia em que ela o largara para ficar com este "outro", e sua face não escondia sua tristeza ao lembrar de tal dia. Ela respondeu que sim. E ele replicou:- Sabe, eu ainda não entendo como você pode me trocar por ele, você vive dizendo que simplesmente aconteceu, mas você parecia tão feliz comigo... Ela mais uma vez o olhou com olhos compassivos e disse:- Eu não queria que fosse assim, mas foi. Talvez eu tenha sido feliz com você, mas afirmar tal coisa seria hipocrisia sem antes se perguntar: "O que é a felicidade?". E eu não sabia o que era felicidade, e talvez ainda não saiba, e talvez felicidade seja uma das coisas da vida mas quais não existe certeza. Ele respirou fundo:- Talvez eu não devesse desenterrar esse assunto, mas só quero saber o que aconteceu realmente, e se por acaso você está me poupando da verdade é porque ainda gosta de mim, e se gosta de mim porque não está comigo? Ela olhou para os sapatos e enquanto brincava com o cigarro entre os dedos ela disse:- Talvez eu só não seja má o suficiente para te dizer a verdade. Mas acho que você já conhece a verdade, só não quer aceitá-la. Andy, esfregando as mãos, disse:- Shelly, eu estou congelando aqui, não quer continuar essa conversa enquanto tomamos um café? Shelly balançou a cabeça em sinal afirmativo. Eles seguiram até uma cafeteria mais à frente, era uma loja de uma daquelas redes de cafeterias. Os dois sentaram-se em uma mesa perto da janela. Andy pediu um capuccino e um pedaço de torta de amoras, Shelly pediu um café preto. Andy continuou antes mesmo de serem servidos:- Eu realmente não sei o que aconteceu conosco. Bem, como você disse, provavelmente eu só estou escondendo a verdade de mim mesmo, mas me diga: porque você tem me evitado esse tempo todo se você está aqui comigo agora? Ela bebeu um gole do café que acabara de ser servido e disse:- Me desculpe se eu te evitei, mas eu só estava sendo realista, não queria criar falsas esperanças. Ele sorriu forçosamente enquanto cortava um pedaço de torta, depois de engoli-la ele disse:- Você devia provar a torta daqui, é realmente um achado! Mas enquanto ao resto, talvez você não queira aceitar a realidade. Você me manteve longe para evitar os sentimentos que você ainda tem por mim, eu realmente não sei o que passa pela sua cabeça, e não estou insinuando que os sentimentos relacionados à mim são mais importantes do que os que você tem por aquele "cara", só quero testar todas as hipóteses da minha mente. Shelly olhou pela janela e foi possível ver o seu reflexo, seus cabelos ruivos brilhavam sob a luz das lâmpadas amarelas, ela retrucou com ar cansado:- Talvez você esteja certo. Mas eu não posso afirmar com certeza. Ela era uma incógnita para ela mesma, e Andy comeu sua torta, deixando um silêncio tenebroso reinando no lugar.

sábado, 30 de julho de 2011

A Cidade 5 - Luzes do Parque

Era noite na cidade, mais uma noite fria e sem vida presenciada por um homem solitário, Frank havia se divorciado há alguns meses, mas ainda não se recuperara, ele ainda não entendia como sua mulher podia tê-lo traído, e se não fosse o fato de pegá-la no ato, ele não acreditaria.
Agora ele andava sozinho pela cidade, tentando encontrar uma razão pra continuar vivo, o parque de diversões tinha luzes em todos os cantos que espantavam a escuridão e a frieza da cidade, ele instintivamente seguiu até o parque, as crianças sorriam enquanto os pais tinham as caras cansadas, em um canto uma tenda vermelha rodeada por crianças chamava a atenção, era um show de fantoches, os pequenos bonecos eram assustadores feitos de uma madeira velha, as crianças assistem quase hipnotizadas um boneco bater no outro com um pedaço de pau, o boneco que apanha pede clemência, mas a voz esganiçada do outro grita:-Silêncio! Você está morto e mortos não falam! Não é mesmo crianças? As crianças respondem afirmativamente e com entusiasmo. O boneco assassino arremessa o corpo sem vida do outro para fora da tenda, e outro boneco aparece no espetáculo, é um policial empunhando um cacetete, ele pergunta ao outro boneco se ele havia matado o outro e o boneco responde com sua voz inumana:- Bem, matar é uma palavra muito forte, eu apenas lhe tirei sua vida inútil. O policial se revolta e anuncia a prisão do boneco. O pequeno assassino diz em tom calmo:- Será que não poderíamos resolver isto de uma maneira melhor? Uns donuts ou um café? O policial balança a cabeça em sinal negativo, o boneco então saca outra vez seu pedaço de pau e espanca o policial até a morte e pergunta à platéia: - Acho que ele está morto, o que acham crianças? As crianças respondem eufóricas que ele está morto e mais uma vez o corpo voa para fora do pequeno palco.
O assassino está sozinho no palco agora, ele olha para baixo e pergunta a si mesmo em voz alta: - O que devo fazer agora? Matei meu melhor amigo, matei minha esposa e matei um policial. Isso me torna ruim crianças? - Frank se espanta por ser uma peça infantil, mas na cidade é preciso familiarizar-se com a morte - As crianças respondem sim, algumas respondem não, o boneco continua a olhar para baixo, uma lágrima falsa cai de seus olhos, do teto da tenda cai um cadafalso, e o boneco coloca seu pescoço nele, em seguida é arremessado do palco e fica pendurado pela corda. Os olhos das crianças brilham e elas aplaudem em um estado febril, aquilo parecia um sonho para Frank, era estranho demais até para aquela cidade.
Frank volta a caminhar, dirigindo-se para a roda-gigante do parque, é como uma grande roda luminosa, chegando mais perto ele pode ouvir o ranger das engrenagens, o jovem que controla a roda-gigante o pergunta se ele quer dar uma volta. Frank tira do bolso algumas moedas e dá ao homem, a roda gigante para e Frank entra numa pequena gaiola de metal, o brinquedo move-se devagar e à medida em que vai chegando mais alto é possível observar as docas e o porto da cidade, mais escuros que a própria noite, aqueles lugares eram não mais do que ruínas agora, as armações de metal rangiam e ele agora sentia-se louco por estar ali. Lá embaixo as pessoas eram pequenas, o suficiente para serem esmagadas como insetos, e por um momento Frank imaginou que todos na cidade eram pequenos insetos, vidas frágeis, prontas para serem esmagadas a qualquer minuto. Ele chegava ao topo, de onde podia se ter uma boa vista da cidade, os prédios com suas janelas iluminadas pareciam pilares que sustentavam a noite, ao longe as fumaças podres do distrito industrial cobriam o horizonte. Olhando a cidade, Frank quase não podia acreditar que um dia ele próprio fora feliz ali. O rosto de sua ex-esposa lhe veio à mente, mas ela não lhe remetia a felicidade, ao longo do tempo ela se tornara apenas mais uma na Cidade, corrompida e infeliz.
A roda gigante parou e Frank saiu da pequena gaiola, as luzes do parque eram fortes e faziam tudo mais medonho, a escuridão da cidade parecia mais segura agora, mas ele continuou a andar pelo parque um mímico se apresentava a algumas crianças, Frank observou de longe e pensou consigo que os mímicos eram sortudos por criarem sua própria realidade, afinal era melhor estar preso em uma caixa do que encarar a dura realidade da cidade.
À frente havia uma casa de espelhos na qual Frank entrou após pagar um ingresso, os espelhos o distorciam, em alguns ele parece mais alto, em outros é mais gordo, há os que o dividem em dois e os que aumentam o tamanho da sua cabeça. Frank senta no chão, ele está rodeado de espelhos. Do bolso da calça ele tira um cigarro e um isqueiro, o cigarro queima lentamente, ele se olha mais uma vez em um dos espelhos, perceber que até mesmo os espelhos mentem não é exatamente algo confortável. Ele sai da casa de espelhos e ruma até a saída do parque, mais uma vez o show de fantoches hipnotiza as crianças e a voz esganiçada do pequeno boneco ecoa pelo parque, Frank hesita ao chegar no portão, lá fora a noite que avança parece ameaçadora.

domingo, 26 de junho de 2011

Homem Doente

Ele olhava para a janela com um olhar vazio, a sua doença piorava a cada dia, ele sabia, e mesmo assim mantinha-se no quarto, sozinho, esperando por mais uma visita. Logo a porta se abriu atrás dele, e no quarto adentrou um homem de vestimentas clássicas, um paletó sobre um belo colete azul marinho, calças sociais negras e um chapéu borsalino.
O homem que acabara de entrar puxou uma cadeira para perto do canapé em que o outro estava sentado e sem fazer cerimônia começou a falar: - Percebo uma ar melancólico no quarto, o senhor está bem? Parece febril. E o outro homem respondeu rispidamente: - Estou. Sabe eu estive esperando por você, sabia que viria, tinha certeza, não será esta certeza uma prova de que o senhor é apenas uma miragem? O homem bem vestido deu um suspiro e lhe disse: - Será que o simples fato de estar aqui à sua frente não é o suficiente? Vocês sempre acham que eu deveria aparecer com estrondos e uma nuvem de enxofre, mas não é assim, nunca foi. Eu admito que algumas vezes utilizo-me de minha forma original para convencer e impressionar os homens, inclusive usei-a com seu ídolo, o primogênito, mas ele não era um homem impressionável. Vou lhe contar algo que poucos sabem: Eu estive lá o tempo todo enquanto Ele ascendia aos céus, e por um momento, enquanto todos se admiravam com sua grandeza e gritavam em seu louvor, eu também fui comovido e quase gritei também em seu louvor, mas o que seria o mundo se eu também o louvasse, o que seria de tu e de muotos outros? O que ninguém percebe é que a minha existência também é necessária quese eu O louvasse, não haveria mais nada, pois sem o mal, como vocês saberiam o que é o bem? Mas isso são ninharias de minha parte, quero saber o que o senhor tem ame dizer. O homem que estava no canapé levantou-se impaciente e disse: - Não tenho nada a lhe dizer exceto que tu és irreal.
O homem sentado tirou um cigarro do bolso do paletó e o acendeu, e começou a indagar com um ar de galhofa: - Mas se tu me dizes que sou irreal, isso já não faz de ti um crente? O senhor se engana pensando que estou aqui para confundí-lo, estou aqui unicamente para te ajudar, te ouvir, afinal há muito tempo o senhor não sai desse quarto para ter algum contato social. Sei que tu me dirás que não precisa de contato com os outros, pois os outros são inferiores a ti, e esse teu aspecto me lembra muito alguns que vivem em meu reino. E só agora percebo que é verdade o que uma vez me disseram: "É até curioso conversar com um homem inteligente" e sei o quanto o senhor é inteligente, realmente és um homem singular, um pensador que não aceita a verdade.
O homem em pé ouviu a tudo com desinteresse e no final bradou: - Tu achas que me intimida com teu discurso?! Achas que acredito em uma palavra que dizes?! Sei que tu és só  uma personificação de minhas ideias mais torpes! E num acesso de raiva o homem investiu contra o outro... 
Seus olhos se abriram e viram o teto, ele estava deitado no chão, e não havia ninguém no quarto, embora a cadeira estivesse junto ao canapé.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A Cidade 4 :Mistérios de um Homem Comum

É noite na cidade e, apesar disso, nada é calmo, as pessoas andam, se movimentam, esquivam-se uma das outras em uma dança epilética. O casaco que cobria o terno voava levemente na brisa calma da noite, que não combinava com as pessoas loucas em sua movimentação frenética.
Por trás do terno surrado, ele podia sentir o peso do bronze que havia em seu distintivo, ele era só mais um entre todos aqueles, pelo menos enquanto não mostrasse o distintivo, era estranho como as pessoas depravadas daquela cidade se intimidavam com os policiais, ele pensava que talvez fosse pela enorme quantidade de policiais corruptos que andavam pela cidade. A cidade é assim, ela clama pelo pior lado de todas as pessoas, e era em noites como aquela que podia se ouvir a respiração tísica da cidade, ela implorava por tudo e todos em uma sinfonia de buzinas, sirenes e vozes confusas, os grandes prédios ali no centro observavam-no como sentinelas, prontas para esmagar o primeiro que se atrevesse a ir contra o rumo podre que todas as pessoas da cidade tomavam. Mesmo o inconfundível cheiro da chuva que caía leve, podia disfarçar o cheiro da decomposição moral em que todos se encontravam.
Os guarda-chuvas começavam a se abrir como flores negras que denunciavam a morte na multidão que seguia pela calçada, e ele próprio abriu seu guarda-chuva. Ele sempre soube que seria assim, ser investigador da polícia naquela cidade era um trabalho árduo, algo que poucos se candidatavam à ser, e era por isso que ele nem sequer tinha um parceiro, o contingente de investigadores é pequeno demais, era o que disse seu chefe. E talvez por esse descaso ou talvez por simples falta de vontade, ele não fazia seu trabalho direito há meses, nem sequer dava importância à provas essenciais, e não fazia a mínima questão de ouvir o que testemunhas tinham para dizer. Não ele estava mais preocupado com a cidade e tentava manter-se à salvo dela, mas era impossível, ele tornara-se parte dela, no final ele era apenas um deles, apenas mais um tentando não se molhar em uma chuva que só deus sabe porque caía.
Ele olhou para cima, e viu alguns prédios antigos à sua volta, a verdade era que ele nunca havia se preocupado em olhar para cima e tentar ver a beleza da arquitetura do começo do século passado. As pessoas andavam tão rápidas e mergulhavam-se tão profundamente em seu individualismo torpe, que nunca percebiam as belezas da cidade. Ninguém se preocupava com o alto-relevo da fachada de um prédio “velho”, como diriam alguns, não a ideologia do mercado os forçava a acreditar que apenas o que é novo é bom, e que a modernidade deve varrer a história para debaixo de um tapete inalcançável para as gerações futuras. E ele mesmo agia a favor desses porcos liberais, eles rosnavam, ele os atendia, havia cumplicidade entre ele e aqueles idiotas, afinal a polícia tem a finalidade de agir de acordo com o interesse daqueles que são os mestres de todos os fantoches. Mas então ele se pergunta mentalmente: - Quem está por trás das cortinas? E esta pergunta ecoou pela sua mente, não havia resposta não havia como saber, o sistema é bem arquitetado e a própria cidade é um labirinto, que não deixa ninguém alcançar o pote de ouro, ou neste caso, as linhas que controlam os fantoches.
Olhando ao redor e afastando os pensamentos, ele viu um “colega” (era como chamava os outros policiais) fardado, e seus olhos cintilaram ao imaginar que ninguém sabia o que aqueles idiotas de farda faziam. Eram todos corruptos, mas o investigador perguntou a si mesmo:- Será que a culpa é deles? E ele pode ver que não, eles eram todos coagidos, assim como ele, por uma força maior. A verdade é que ninguém tem realmente as cordas dos fantoches, não naquela cidade. A cidade agia como um tumor, crescia e se espalhava, não só em termos territoriais, mas ela ia se tornando parte de cada um. Cada um deles era um portador daquela doença terrível, mas de repente algo varreu esses pensamentos da sua mente vazia.
Um corpo cortou o ar denso da cidade e caiu com força no chão, as pessoas diminuíam os passos agora, sedentos pela morte, que lhes agradava como um copo de vodka agrada a um alcoólatra, o sangue corria na calçada, e o investigador por um impulso, abaixou seu guarda-chuva e o colocou protegendo o morto e saiu andando, pensando naquela pobre vítima daquela terrível doença que corroia todos eles, a febre da Cidade.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Estrelas

Os pés se arrastam pelos degraus do ônibus, o motorista olha lentamente para aquela figura estranha, lá fora cai uma chuva fraca, e o vento gelado de inverno corta os corações como uma faca quente. Naquele meio de transporte, as pessoas são indiferentes, e o mundo parece ser um filme mudo passando em um preto e branco nauseante. Mas há sempre o brilho das estrelas no céu negro, e como uma estrela, os olhos dela brilham, voltando-se como um último raio de esperança para um homem perdido na névoa densa de seus próprios pensamentos.
Aqueles olhos o resgatam, o tiram à força de seu transe febril. E ele se sente vivo pela primeira vez em muito tempo.