quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Encontros de Verdades

Era o começo de uma noite fria de outono, o céu era nublado e o vento frio atingia os ossos de Andy. O charuto Maria Mancini não o ajudava a esquentar-se, apesar do olhar insistente com o qual ele fitava o charuto, esperando que dele viesse algo diferente, mas havia apenas seu gosto e cheiro peculiar que agradavam-lhe muito. Tirando os olhos do charuto, Andy rolou os olhos pela paisagem de forma cansada e foi surpreendido ao ver uma mulher, cuja pele branca contrastava com o tom cinza que reinava na noite nublada, ela parecia emanar uma luz, assim como ele lembrava dela na primeira vez que se viram, uma lembrança que tornara-se enevoada, pelo efeito de seu subconsciente forçando-o a esquecer o sofrimento que ela lhe causara. Seu coração disparava agora, mas era preciso ir até lá, era inevitável. Tirando uma pequena garrafa do bolso, ele se dirigiu até ela, e antes de alcançá-la, já havia esgotado o conteúdo do recipiente, ele estava em estado tal que nem mesmo lembrava o que havia colocado naquele recipiente, talvez whisky, talvez vodka, não tinha certeza.
Andy aproximou-se e notou que ela tinha o olhar perdido, como muitas vezes ele já havia notado. Ele disse a ela enquanto sorria:- Oi, há quanto tempo, não? Ela virou-se ainda com um olhar perdido e o fitou por alguns segundos sorrindo, um sorriso belo, mas que fora sempre um mistério para Andy, parecia compassivo e ao mesmo tempo falso e debochado, era quase como se o significado do seu sorriso fosse regido por aquilo que seu observador acreditasse significar. Ela disse em tom despreocupado:-Oi. Realmente faz muito tempo. E ela então o abraçou, ou pelo menos era o que pareceu a Andy, mas a realidade trabalha de maneiras misteriosas. Ele tirou o charuto da boca ameaçando jogá-lo fora, porém ela interveio dizendo:- Não precisa, eu também fumo agora. E ela tirou um cigarro de um maço que estava na sua bolsa, enquanto o acendia, ele pode notar os olhos dela, haviam-se passado meses, talvez até anos desde que eles se encontraram pela última vez, mas ele ainda lembrava do tom de seus olhos fugidios: verdes com uma aura azul, quase que imperceptível aos olhares casuais, mas que sempre estava presente quando eram vistos com olhos admiradores. Andy continuou a conversa:- Você realmente mudou desde a última vez, eu quero dizer, você não fumava, e agora você parece tão diferente, mas é claro que olhares não dissecam a alma - ela esboçou um sorriso - . Mas você ainda está com aquele cara? Até hoje ele lembrava do dia em que ela o largara para ficar com este "outro", e sua face não escondia sua tristeza ao lembrar de tal dia. Ela respondeu que sim. E ele replicou:- Sabe, eu ainda não entendo como você pode me trocar por ele, você vive dizendo que simplesmente aconteceu, mas você parecia tão feliz comigo... Ela mais uma vez o olhou com olhos compassivos e disse:- Eu não queria que fosse assim, mas foi. Talvez eu tenha sido feliz com você, mas afirmar tal coisa seria hipocrisia sem antes se perguntar: "O que é a felicidade?". E eu não sabia o que era felicidade, e talvez ainda não saiba, e talvez felicidade seja uma das coisas da vida mas quais não existe certeza. Ele respirou fundo:- Talvez eu não devesse desenterrar esse assunto, mas só quero saber o que aconteceu realmente, e se por acaso você está me poupando da verdade é porque ainda gosta de mim, e se gosta de mim porque não está comigo? Ela olhou para os sapatos e enquanto brincava com o cigarro entre os dedos ela disse:- Talvez eu só não seja má o suficiente para te dizer a verdade. Mas acho que você já conhece a verdade, só não quer aceitá-la. Andy, esfregando as mãos, disse:- Shelly, eu estou congelando aqui, não quer continuar essa conversa enquanto tomamos um café? Shelly balançou a cabeça em sinal afirmativo. Eles seguiram até uma cafeteria mais à frente, era uma loja de uma daquelas redes de cafeterias. Os dois sentaram-se em uma mesa perto da janela. Andy pediu um capuccino e um pedaço de torta de amoras, Shelly pediu um café preto. Andy continuou antes mesmo de serem servidos:- Eu realmente não sei o que aconteceu conosco. Bem, como você disse, provavelmente eu só estou escondendo a verdade de mim mesmo, mas me diga: porque você tem me evitado esse tempo todo se você está aqui comigo agora? Ela bebeu um gole do café que acabara de ser servido e disse:- Me desculpe se eu te evitei, mas eu só estava sendo realista, não queria criar falsas esperanças. Ele sorriu forçosamente enquanto cortava um pedaço de torta, depois de engoli-la ele disse:- Você devia provar a torta daqui, é realmente um achado! Mas enquanto ao resto, talvez você não queira aceitar a realidade. Você me manteve longe para evitar os sentimentos que você ainda tem por mim, eu realmente não sei o que passa pela sua cabeça, e não estou insinuando que os sentimentos relacionados à mim são mais importantes do que os que você tem por aquele "cara", só quero testar todas as hipóteses da minha mente. Shelly olhou pela janela e foi possível ver o seu reflexo, seus cabelos ruivos brilhavam sob a luz das lâmpadas amarelas, ela retrucou com ar cansado:- Talvez você esteja certo. Mas eu não posso afirmar com certeza. Ela era uma incógnita para ela mesma, e Andy comeu sua torta, deixando um silêncio tenebroso reinando no lugar.

sábado, 30 de julho de 2011

A Cidade 5 - Luzes do Parque

Era noite na cidade, mais uma noite fria e sem vida presenciada por um homem solitário, Frank havia se divorciado há alguns meses, mas ainda não se recuperara, ele ainda não entendia como sua mulher podia tê-lo traído, e se não fosse o fato de pegá-la no ato, ele não acreditaria.
Agora ele andava sozinho pela cidade, tentando encontrar uma razão pra continuar vivo, o parque de diversões tinha luzes em todos os cantos que espantavam a escuridão e a frieza da cidade, ele instintivamente seguiu até o parque, as crianças sorriam enquanto os pais tinham as caras cansadas, em um canto uma tenda vermelha rodeada por crianças chamava a atenção, era um show de fantoches, os pequenos bonecos eram assustadores feitos de uma madeira velha, as crianças assistem quase hipnotizadas um boneco bater no outro com um pedaço de pau, o boneco que apanha pede clemência, mas a voz esganiçada do outro grita:-Silêncio! Você está morto e mortos não falam! Não é mesmo crianças? As crianças respondem afirmativamente e com entusiasmo. O boneco assassino arremessa o corpo sem vida do outro para fora da tenda, e outro boneco aparece no espetáculo, é um policial empunhando um cacetete, ele pergunta ao outro boneco se ele havia matado o outro e o boneco responde com sua voz inumana:- Bem, matar é uma palavra muito forte, eu apenas lhe tirei sua vida inútil. O policial se revolta e anuncia a prisão do boneco. O pequeno assassino diz em tom calmo:- Será que não poderíamos resolver isto de uma maneira melhor? Uns donuts ou um café? O policial balança a cabeça em sinal negativo, o boneco então saca outra vez seu pedaço de pau e espanca o policial até a morte e pergunta à platéia: - Acho que ele está morto, o que acham crianças? As crianças respondem eufóricas que ele está morto e mais uma vez o corpo voa para fora do pequeno palco.
O assassino está sozinho no palco agora, ele olha para baixo e pergunta a si mesmo em voz alta: - O que devo fazer agora? Matei meu melhor amigo, matei minha esposa e matei um policial. Isso me torna ruim crianças? - Frank se espanta por ser uma peça infantil, mas na cidade é preciso familiarizar-se com a morte - As crianças respondem sim, algumas respondem não, o boneco continua a olhar para baixo, uma lágrima falsa cai de seus olhos, do teto da tenda cai um cadafalso, e o boneco coloca seu pescoço nele, em seguida é arremessado do palco e fica pendurado pela corda. Os olhos das crianças brilham e elas aplaudem em um estado febril, aquilo parecia um sonho para Frank, era estranho demais até para aquela cidade.
Frank volta a caminhar, dirigindo-se para a roda-gigante do parque, é como uma grande roda luminosa, chegando mais perto ele pode ouvir o ranger das engrenagens, o jovem que controla a roda-gigante o pergunta se ele quer dar uma volta. Frank tira do bolso algumas moedas e dá ao homem, a roda gigante para e Frank entra numa pequena gaiola de metal, o brinquedo move-se devagar e à medida em que vai chegando mais alto é possível observar as docas e o porto da cidade, mais escuros que a própria noite, aqueles lugares eram não mais do que ruínas agora, as armações de metal rangiam e ele agora sentia-se louco por estar ali. Lá embaixo as pessoas eram pequenas, o suficiente para serem esmagadas como insetos, e por um momento Frank imaginou que todos na cidade eram pequenos insetos, vidas frágeis, prontas para serem esmagadas a qualquer minuto. Ele chegava ao topo, de onde podia se ter uma boa vista da cidade, os prédios com suas janelas iluminadas pareciam pilares que sustentavam a noite, ao longe as fumaças podres do distrito industrial cobriam o horizonte. Olhando a cidade, Frank quase não podia acreditar que um dia ele próprio fora feliz ali. O rosto de sua ex-esposa lhe veio à mente, mas ela não lhe remetia a felicidade, ao longo do tempo ela se tornara apenas mais uma na Cidade, corrompida e infeliz.
A roda gigante parou e Frank saiu da pequena gaiola, as luzes do parque eram fortes e faziam tudo mais medonho, a escuridão da cidade parecia mais segura agora, mas ele continuou a andar pelo parque um mímico se apresentava a algumas crianças, Frank observou de longe e pensou consigo que os mímicos eram sortudos por criarem sua própria realidade, afinal era melhor estar preso em uma caixa do que encarar a dura realidade da cidade.
À frente havia uma casa de espelhos na qual Frank entrou após pagar um ingresso, os espelhos o distorciam, em alguns ele parece mais alto, em outros é mais gordo, há os que o dividem em dois e os que aumentam o tamanho da sua cabeça. Frank senta no chão, ele está rodeado de espelhos. Do bolso da calça ele tira um cigarro e um isqueiro, o cigarro queima lentamente, ele se olha mais uma vez em um dos espelhos, perceber que até mesmo os espelhos mentem não é exatamente algo confortável. Ele sai da casa de espelhos e ruma até a saída do parque, mais uma vez o show de fantoches hipnotiza as crianças e a voz esganiçada do pequeno boneco ecoa pelo parque, Frank hesita ao chegar no portão, lá fora a noite que avança parece ameaçadora.

domingo, 26 de junho de 2011

Homem Doente

Ele olhava para a janela com um olhar vazio, a sua doença piorava a cada dia, ele sabia, e mesmo assim mantinha-se no quarto, sozinho, esperando por mais uma visita. Logo a porta se abriu atrás dele, e no quarto adentrou um homem de vestimentas clássicas, um paletó sobre um belo colete azul marinho, calças sociais negras e um chapéu borsalino.
O homem que acabara de entrar puxou uma cadeira para perto do canapé em que o outro estava sentado e sem fazer cerimônia começou a falar: - Percebo uma ar melancólico no quarto, o senhor está bem? Parece febril. E o outro homem respondeu rispidamente: - Estou. Sabe eu estive esperando por você, sabia que viria, tinha certeza, não será esta certeza uma prova de que o senhor é apenas uma miragem? O homem bem vestido deu um suspiro e lhe disse: - Será que o simples fato de estar aqui à sua frente não é o suficiente? Vocês sempre acham que eu deveria aparecer com estrondos e uma nuvem de enxofre, mas não é assim, nunca foi. Eu admito que algumas vezes utilizo-me de minha forma original para convencer e impressionar os homens, inclusive usei-a com seu ídolo, o primogênito, mas ele não era um homem impressionável. Vou lhe contar algo que poucos sabem: Eu estive lá o tempo todo enquanto Ele ascendia aos céus, e por um momento, enquanto todos se admiravam com sua grandeza e gritavam em seu louvor, eu também fui comovido e quase gritei também em seu louvor, mas o que seria o mundo se eu também o louvasse, o que seria de tu e de muotos outros? O que ninguém percebe é que a minha existência também é necessária quese eu O louvasse, não haveria mais nada, pois sem o mal, como vocês saberiam o que é o bem? Mas isso são ninharias de minha parte, quero saber o que o senhor tem ame dizer. O homem que estava no canapé levantou-se impaciente e disse: - Não tenho nada a lhe dizer exceto que tu és irreal.
O homem sentado tirou um cigarro do bolso do paletó e o acendeu, e começou a indagar com um ar de galhofa: - Mas se tu me dizes que sou irreal, isso já não faz de ti um crente? O senhor se engana pensando que estou aqui para confundí-lo, estou aqui unicamente para te ajudar, te ouvir, afinal há muito tempo o senhor não sai desse quarto para ter algum contato social. Sei que tu me dirás que não precisa de contato com os outros, pois os outros são inferiores a ti, e esse teu aspecto me lembra muito alguns que vivem em meu reino. E só agora percebo que é verdade o que uma vez me disseram: "É até curioso conversar com um homem inteligente" e sei o quanto o senhor é inteligente, realmente és um homem singular, um pensador que não aceita a verdade.
O homem em pé ouviu a tudo com desinteresse e no final bradou: - Tu achas que me intimida com teu discurso?! Achas que acredito em uma palavra que dizes?! Sei que tu és só  uma personificação de minhas ideias mais torpes! E num acesso de raiva o homem investiu contra o outro... 
Seus olhos se abriram e viram o teto, ele estava deitado no chão, e não havia ninguém no quarto, embora a cadeira estivesse junto ao canapé.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A Cidade 4 :Mistérios de um Homem Comum

É noite na cidade e, apesar disso, nada é calmo, as pessoas andam, se movimentam, esquivam-se uma das outras em uma dança epilética. O casaco que cobria o terno voava levemente na brisa calma da noite, que não combinava com as pessoas loucas em sua movimentação frenética.
Por trás do terno surrado, ele podia sentir o peso do bronze que havia em seu distintivo, ele era só mais um entre todos aqueles, pelo menos enquanto não mostrasse o distintivo, era estranho como as pessoas depravadas daquela cidade se intimidavam com os policiais, ele pensava que talvez fosse pela enorme quantidade de policiais corruptos que andavam pela cidade. A cidade é assim, ela clama pelo pior lado de todas as pessoas, e era em noites como aquela que podia se ouvir a respiração tísica da cidade, ela implorava por tudo e todos em uma sinfonia de buzinas, sirenes e vozes confusas, os grandes prédios ali no centro observavam-no como sentinelas, prontas para esmagar o primeiro que se atrevesse a ir contra o rumo podre que todas as pessoas da cidade tomavam. Mesmo o inconfundível cheiro da chuva que caía leve, podia disfarçar o cheiro da decomposição moral em que todos se encontravam.
Os guarda-chuvas começavam a se abrir como flores negras que denunciavam a morte na multidão que seguia pela calçada, e ele próprio abriu seu guarda-chuva. Ele sempre soube que seria assim, ser investigador da polícia naquela cidade era um trabalho árduo, algo que poucos se candidatavam à ser, e era por isso que ele nem sequer tinha um parceiro, o contingente de investigadores é pequeno demais, era o que disse seu chefe. E talvez por esse descaso ou talvez por simples falta de vontade, ele não fazia seu trabalho direito há meses, nem sequer dava importância à provas essenciais, e não fazia a mínima questão de ouvir o que testemunhas tinham para dizer. Não ele estava mais preocupado com a cidade e tentava manter-se à salvo dela, mas era impossível, ele tornara-se parte dela, no final ele era apenas um deles, apenas mais um tentando não se molhar em uma chuva que só deus sabe porque caía.
Ele olhou para cima, e viu alguns prédios antigos à sua volta, a verdade era que ele nunca havia se preocupado em olhar para cima e tentar ver a beleza da arquitetura do começo do século passado. As pessoas andavam tão rápidas e mergulhavam-se tão profundamente em seu individualismo torpe, que nunca percebiam as belezas da cidade. Ninguém se preocupava com o alto-relevo da fachada de um prédio “velho”, como diriam alguns, não a ideologia do mercado os forçava a acreditar que apenas o que é novo é bom, e que a modernidade deve varrer a história para debaixo de um tapete inalcançável para as gerações futuras. E ele mesmo agia a favor desses porcos liberais, eles rosnavam, ele os atendia, havia cumplicidade entre ele e aqueles idiotas, afinal a polícia tem a finalidade de agir de acordo com o interesse daqueles que são os mestres de todos os fantoches. Mas então ele se pergunta mentalmente: - Quem está por trás das cortinas? E esta pergunta ecoou pela sua mente, não havia resposta não havia como saber, o sistema é bem arquitetado e a própria cidade é um labirinto, que não deixa ninguém alcançar o pote de ouro, ou neste caso, as linhas que controlam os fantoches.
Olhando ao redor e afastando os pensamentos, ele viu um “colega” (era como chamava os outros policiais) fardado, e seus olhos cintilaram ao imaginar que ninguém sabia o que aqueles idiotas de farda faziam. Eram todos corruptos, mas o investigador perguntou a si mesmo:- Será que a culpa é deles? E ele pode ver que não, eles eram todos coagidos, assim como ele, por uma força maior. A verdade é que ninguém tem realmente as cordas dos fantoches, não naquela cidade. A cidade agia como um tumor, crescia e se espalhava, não só em termos territoriais, mas ela ia se tornando parte de cada um. Cada um deles era um portador daquela doença terrível, mas de repente algo varreu esses pensamentos da sua mente vazia.
Um corpo cortou o ar denso da cidade e caiu com força no chão, as pessoas diminuíam os passos agora, sedentos pela morte, que lhes agradava como um copo de vodka agrada a um alcoólatra, o sangue corria na calçada, e o investigador por um impulso, abaixou seu guarda-chuva e o colocou protegendo o morto e saiu andando, pensando naquela pobre vítima daquela terrível doença que corroia todos eles, a febre da Cidade.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Estrelas

Os pés se arrastam pelos degraus do ônibus, o motorista olha lentamente para aquela figura estranha, lá fora cai uma chuva fraca, e o vento gelado de inverno corta os corações como uma faca quente. Naquele meio de transporte, as pessoas são indiferentes, e o mundo parece ser um filme mudo passando em um preto e branco nauseante. Mas há sempre o brilho das estrelas no céu negro, e como uma estrela, os olhos dela brilham, voltando-se como um último raio de esperança para um homem perdido na névoa densa de seus próprios pensamentos.
Aqueles olhos o resgatam, o tiram à força de seu transe febril. E ele se sente vivo pela primeira vez em muito tempo.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Vietnã- Horrores da Guerra

A lama formara uma crosta em suas botas que atraía moscas, os mosquitos se tornaram tão banais que ele nem mesmo os sentia, a umidade era insuportável, e seus inimigos eram invisíveis.
Essa é a descrição do Recruta Mathew O´Donnel, ou Matt como era chamado por seus companheiros, embora ele já perdesse a conta de quanto estivera naquele inferno, faziam-se 513 dias desde que saíra de Boston para entrar nessa maldita guerra, o ano é 1969, quase um ano após a ofensiva do Tet.
Há alguns meses atrás Matt nunca havia posto um cigarro na boca, mas agora ele acendia o sexto no dia, ele aprendera que na guerra, o cigarro é a única coisa que disfarça o cheiro de morte no ar. O capacete o fazia suar como um porco, e o suor fazia o capacete escorregar na sua cabeça. Ele ria ao lembrar que durante o treinamento antes de entrar no campo de batalha, disseram a ele que aquele era o melhor equipamento que um soldado podia ter, e que o rifle que ele carregava desde então, um M-16, era o melhor que havia. No primeiro dia de batalha ele percebera que aquilo tudo era mentira, com alguns dias de uso seu rifle travou durante um assalto à uma aldeia norte - vietnamita, enquanto os VCs(eram assim que chamavam os vietcongs) atiravam sem parar com suas AK-47.
O pelotão agora chegava em uma aldeia, não importa quantas vezes eles fizessem aquilo, nunca seria fácil, nas aldeias todos eram inimigos em potencial, e nenhum dos seus companheiros queria morrer naquele buraco. Para Matt todos os vietnamitas eram iguais, aqueles olhos puxados lhe davam nos nervos. Todos tinham uma cara de zombaria, eram olhos do demônio, ele dizia a seu pelotão. Mas a verdade é que eles se sentiam do mesmo jeito em relação aos Joes(como eram chamados os soldados americanos).
Seu rifle já se tornara parte dele e ele estava atento como nunca, ele apontava a arma para os aldeões, enquanto o capitão gritava algo em vietnamita para eles. De repente um tiro, todos deitaram, Matt olhou ao redor e viu o capitão ferido se arrastando, seu rifle disparou uma rajada de morte em um aldeão próximo. Um homem de seu pelotão gritava freneticamente enquanto arremessava granadas:- Fogo na área! Os outros atiravam para todos os lados e o cabo que tinha o rádio pedia apoio aéreo. Era tudo uma loucura. Matt correu para trás de uma pedra próxima e tirou algo do bolso, o capitão havia lhe dado aquilo para uma ocasião de risco, era uma pílula. Ele a enfiou goela abaixo e começou a atirar nos vietnamitas, ele viu uma mulher tombar morta com um tiro que lhe arrebentou a cabeça, não havia nada de novo nisso, Matt repetia para si mesmo, enquanto atirava. O homem do rádio gritou:- Apoio aéreo iminente! Matt sabia muito bem que era hora de correr de volta para fora da aldeia, os F-4 Phantoms não eram lá muito precisos com suas cargas de Napalm. E então ele ouviu o barulho ensurdecedor dos motores daqueles anjos da morte, Matt olhou para trás a tempo de ver o Napalm detonar e pôr fogo em toda a aldeia, os VCs corriam enquanto pegavam fogo, a cabeça do recruta rodava e ele pôs a cara no chão lamacento da floresta e pôs sua ração diária para fora. Era Guerra, Era o Vietnã.

Névoa do Outono

O alarme tocava incessantemente, Alan abriu os olhos ainda cansados e caminhou maquinalmente até o banheiro, escovou os dentes e viu seu reflexo no espelho, a barba, não feita há três semanas, apresentava alguns pelos brancos. Os cabelos castanhos escuros se tornavam cada vez mais grisalhos, ele olhou nos olhos negros de seu reflexo, e por um momento ínfimo, não reconheceu aquele olhar vazio, sem nenhuma dor, sem nenhuma perspectiva de seu futuro, naqueles olhos havia apenas frustração, medo e loucura.
Ele saiu do banheiro ainda com sono, dirigiu-se à pequena cozinha e bebeu uma xícara de café que estivera lá desde a noite passada, e finalmente dirigiu-se ao computador, Alan fitou o teclado, esperando que algo lhe aparecesse na mente. Nada. Naquele casebre de madeira reinava o silêncio, interrompido apenas pelo tic-tac irritante do velho relógio na sala de estar, que pendia na parede sobre o computador.
O tempo se arrastava na mente distraída de Alan, e ele agora lembrava de que estivera morando ali, longe de tudo, há um ano. Mas não adiantara nada, não havia inspiração naquele lugar, havia apenas silêncio. Alan se levantou e pegou seu casaco, abriu a porta e foi caminhando na pequena estrada de terra que dava para a cidade que ficava a apenas quinze minutos dali. Era outono, e a brisa fria fazia as folhas de diferentes cores que caíam das árvores que margeavam a pequena estrada voarem, formando um espetáculo de cores que sequer chamava a atenção de Alan, ele olhava para o chão em um quase transe, seguindo sabe-se lá porque o caminho para aquela pequena cidade.
Depois de algum tempo caminhando ele chegou à entrada da cidade, Alan olhou ao redor, a cidade estava vazia, a rua principal tinha algumas lojas, todas construídas com tijolos vermelhos, mais à frente havia um bar com uma aparência muito mais velha que as outras construções ali. Alan seguiu até o bar e adentrou-o por impulso. Nas mesas de madeira velha havia alguns clientes, todos olharam para Alan com olhares desconfiados, afinal ele vinha raramente na cidade e nunca havia entrado naquele estabelecimento. Alan não ligou para os observadores e sentou num banco surrado no balcão, o atendente, que possuía uma espessa barba e cabelos negros que saíam por debaixo do gorro que usava, perguntou a ele: - O que vai querer? Alan olhou para o atendente com o mesmo olhar vazio. E finalmente pediu uma cerveja. Após alguns instantes uma grande caneca com aquele liquido amarelo estava na sua frente, o gosto era terrivelmente amargo, mas isso não incomodou Alan, enquanto ele tomava mais um gole de sua caneca, um homem com uma camisa xadrez sentou do seu lado em um banco igualmente velho, pediu uma dose de whisky e perguntou à Alan: - Você não é aquele escritor famoso, Alan Bale? Alan examinou o interrogador e viu um homem magro e de aparência velha. Ele finalmente respondeu enquanto olhava para as garrafas atrás do balcão: - Sou. E ao falar isso Alan lembrou de que tivera um livro de sucesso há dois anos (mas parecia-lhe que se passara uma eternidade desde então) apesar do sucesso do seu livro, ele odiava aquilo, ele escrevera o livro unicamente para agradar a editora, sentia vergonha de si mesmo. Alan deu um ultimo gole na caneca de cerveja e saiu do bar sem nem mesmo uma explicação ao seu interrogador. Ele olhou ao redor e foi ao encontro de uma loja de armas próxima dali. Um homem careca e com uma roupa camuflada observou a porta se abrir e Alan entrar na loja. Nas paredes havia armas penduradas, o balcão, feito de madeira e vidro, exibia revolveres e munição. O homem que observava Alan perguntou: - O que deseja senhor?  Alan respondeu distraído: - Só estou olhando. Alan olhava para os rifles na parede, lembrando-se de que sempre for a fascinado por armas, parte disso talvez tivesse ligada ao seu pai, que muitas vezes o levava para caçar, mas ele adorava o poder e a liberdade que uma arma traz a qualquer um que a empunhe, talvez ele precisasse de uma arma, e ao pensar nisso ele estremeceu lembrando-se da sensação que teve quando atirou pela primeira vez, era verão, e Alan tinha apenas onze anos, seu pai lhe dera o seu revólver .357 para que ele atirasse numa lata de cerveja. Mas aquilo tudo era passado e ele voltava à loja de armas segurando um rifle de caça de longo alcance, sem pensar Alan pôs o rifle no balcão e tirou um bolo de notas do casaco, pediu munição e pagou tudo ao atendente, que mais uma vez observou a porta se abrir, desta vez para a saída de Alan.
O escritor andava mais uma vez na estrada de terra, indo agora em direção à sua cabana com o rifle pendurado no ombro por uma bandoleira. A brisa batia nas folhas, criando um som que clamava por Alan, havia na linha das árvores uma leve névoa que encobria o chão coberto por folhas da floresta. Alan adentrava a floresta sentindo a fria névoa tocar suas calças, ali tudo era quieto e Alan podia observar as folhas caindo das árvores como uma chuva de cores, ele seguiu pela floresta, na esperança de algo que ele não sabia o que era, havia naquilo tudo um ar místico, ou talvez fosse apenas a imaginação daquele escritor frustrado. Alan seguiu mais ainda na floresta e viu, ao longe, um cervo que estava parado, o escritor posicionou a arma em um instante, e olhou através da mira telescópica, quando o ponto vermelho da mira chegou à cabeça do cervo, Alan atirou. O tiro ecoou pela floresta e o sangue vermelho misturou-se às folhas amarelas e marrons do chão, e Alan caminhou até o cervo, e sem pensar ajoelhou ao lado dele e deitou a cabeça em seu abdômen e conseguiu sentir a vida esvair-se daquela bela criatura. Ele tirou o rifle do ombro e o colocou sobre o cervo. Ele olhou ao redor e percebeu que não havia mais névoa e que a própria brisa constante cessara, olhando para o alto parecia-lhe que as copas das árvores o observavam, Alan então andou rápido em direção à estrada de terra, mas a floresta parecia não terminar, depois de caminhar sem rumo ele chegou a um pequeno riacho, a água limpa corria devagar, Alan aproximou-se do riacho e, percebendo que tinha sangue do cervo nas mãos, as mergulhou na água e viu o sangue ser levado pela água, tão límpida que ele pode ver seu reflexo. Seu cabelo estava desarrumado, a barba estava suja de sangue, além de conter pelos de cervo. Seu olhar não era mais vazio, havia nele o fogo dos olhos de alguém que acabara de matar, aquela sensação de poder, como se a vida tirada fosse acrescentada à sua própria, ele nunca havia sentido aquilo, ele talvez tivesse vislumbrado aquela sensação enquanto escrevia seus livros, mas nada se comparava àquela sensação. Ele mergulhou o rosto na água, deixando-a fluir e logo depois retirando-o, de repente a brisa de outono voltara, e novamente caíam as folhas daquelas árvores, o mundo fluía gentilmente como a água que fluía em sua face há pouco e tudo parecia bem, mas mesmo assim, Alan sentiu uma enorme necessidade de voltar à cabana, voltar à si mesmo. Ele seguiu sem saber aonde ia e acabou chegando a sua cabana no fim da tarde. A porta rangeu quando ele a abriu, Alan tirou o casaco e o jogou em cima do sofá, ele sentou-se à frente do computador como havia feito antes e começou a escrever, o barulho das teclas pressionadas enchia a casa com o esplendor da imaginação e da libertação daquela pobre alma.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A Cidade 3:Céu Noturno

As escadas estavam empoeiradas, embora em bom estado. O prédio era antigo, era um daqueles prédios que se destacava por ter apenas cinco andares, enquanto estava rodeado por arranha-céus, Tom morava ali desde que começou seu trabalho como contador numa grande compania há um ano. Tom abriu a porta que dava para o telhado com certo receio do que iria encontrar ali, a porta rangeu lentamente enquanto se abria, deixando o ar fresco da noite fazer os cabelos castanhos dele ondularem. A noite na cidade era singular, o céu negro envolvia a cidade como um manto que cobre um cadáver, não havia estrelas no céu, e o brilho da lua crescente era fraco, ofuscado pela lâmpada em cima da porta, Tom olhou para o lado e percebeu que seu vizinho, Harry, estava sentado no chão do telhado com as costas recostadas no parapeito, ele fumava um charuto, e seus olhos cinzentos pareciam procurar alguma coisa na noite. Tom deu alguns passos lentos, debruçou-se sobre o parapeito ao lado de Harry e observou a rua, os carros andavam freneticamente e as pessoas tinham passos apressados que os levavam para lugar nenhum, as luzes dos prédios ao redor eram fortes e espantavam a escuridão noturna, o charuto de Harry exalava um odor estimulante, e ele, olhando para Tom disse:- É cubano. Quer um trago? E Tom olhou para o homem de trinta e poucos anos e cabelos já grisalhos com um ar interrogativo, mas acabou aceitando, Tom sentou e por um momento observou o charuto queimar, depois de devolvê-lo a Harry, ele olhou para cima tentando lembrar o que pretendia fazer naquele telhado. Harry de repente perguntou:- O céu está tão escuro e provocante como essa cidade, não acha? Tom permaneceu calado por alguns minutos e depois respondeu:- Acho.
Um avião passava sozinho na escuridão daquele céu que parecia infinito, e Tom se perguntou o que as pessoas naquele avião veriam se olhassem para baixo, será que veriam apenas um ponto brilhante, pequeno o bastante para escapar da vista? Ou veriam um ponto negro, mais escuro que o próprio céu noturno? E ele não soube responder.
Uma chuva fina começava cair, e as frias gotas eram as únicas coisas que mantinham Tom acordado. Ele se levantou para tentar espantar o sono, as pernas por um momento fraquejaram, ele olhou para baixo, nas calçadas era possível ver centenas de guarda-chuvas movendo-se em um fluxo constante. Mas aquela sua contemplação foi interrompida pela voz forte de Harry:- Sabe, eu fui criado nessa Cidade, e tenho que admitir que tive uma bela infância, mas tudo mudou desde então, tudo se tornou mais sombrio, A Cidade cresceu, se tornou mais do que apenas um lugar, mais do que apenas uma cidade, você vai me chamar de louco, mas ela adquiriu quase que vida própria, você sabe, A Cidade muda as pessoas...
Tom olhou vagarosamente para Harry, tentando entender o que ele falava, mas o sono e a chuva só deixaram que ele ouvisse uma parte. Os cabelos já encharcados caíam-lhe sobre os olhos, mas ele viu Harry se levantar e olhar para baixo, e ele observou um guarda-chuva ser levado por uma súbita rajada de vento. Tom foi andando vagarosamente até a porta que dava para as escadas, ele reteve-se na porta e ficou observando Harry por alguns instantes e finalmente perguntou:-Você não vem?
Harry apenas fez um gesto com a mão para que Tom descesse, este deu de ombros e arrastou os pés pelas escadas. Harry olhou para o céu, e a escuridão mesclou-se à clara névoa que se formava, ele olhou mais uma vez para baixo e então deixou-se cair. Logo seu corpo imóvel interrompeu o fluxo de guarda-chuvas, a chuva misturou-se ao sangue que corria. Um homem com um terno surrado se abaixou, deixou um guarda-chuva protegendo o corpo e se foi na multidão, seus olhos vidrados refletiam a escuridão da noite.

A Cidae 2: Subúrbio

Há dois anos George mudara-se com sua família para aquele subúrbio, e agora ele percebia, enquanto abria a porta de casa, que desde que se mudou sua vida passara como um vulto em sua frente, ele não tinha muitas memórias que pudesse evocar agora sobre aquele lugar. A esposa aproximou-se e lhe recebeu com um abraço, os filhos vieram correndo para ele, e George permanecia impassível, finalmente se dando conta de que tudo aquilo era artificial demais. Um pensamento passou nebulosa e rapidamente por sua cabeça, ele, por um mísero instante enquanto saía maquinalmente do banho, lembrou-se de um verso uma música que descreveria perfeitamente aquele subúrbio isolado da cidade imunda: “Fileiras de casas que são todas iguais, e ninguém parece se importar”.
Enquanto jantava com a família em silêncio ele pensava o quanto almejara aquele momento durante toda a sua vida, mas agora que ele finalmente vivia seu objetivo, ele se sentia vazio, sentia-se fora daquilo tudo, mas apesar dos pensamentos atormentadores ele dormiu rapidamente, esperando que o domingo o fizesse sentir bem.
Depois de tomar o café-da-manhã, George saíra para seu quintal com seu gramado verde e as flores no jardim feito por sua mulher. Ele sentou na entrada da casa e observou ao redor, do outro lado da rua o vizinho cortava a grama com um sorriso no rosto, há algumas casas dali crianças jogavam baseball, e George se lembrou de quando tudo aquilo à sua volta era um sonho e seu objetivo, mas agora que estava ali ele sentia que, apesar de toda a perfeição à sua volta, ele não era feliz, unicamente porque ele vivia a sua vida sem um objetivo sem nenhuma ambição, ele chegara ao topo e não havia como subir mais, a única maneira de sair dali era descer. O reflexo brilhante do Sol na janela de uma casa logo afastou os seus pensamentos e ele desviou o olhar para as crianças que jogavam bola e pensou que aquele era o mundo perfeito para elas, justamente porque aquelas crianças não conheciam o que rodeava aquele subúrbio, elas nunca haviam entrado nas sombras da cidade, nunca viram o que ele havia visto: as atrocidades, as incertezas daquela cidade corrompida. Ali, naquele subúrbio perfeito, elas estavam a salvo das dúvidas e viviam conforme a certeza de que tudo sempre dava certo.
George levantou-se e resolveu fazer uma caminhada pela vizinhança, ali tudo era quieto, a única coisa que rompia a camada de silêncio era o canto dos pássaros, por um instante ele pensou no que sua esposa andava fazendo enquanto ele estava no trabalho, e ele se lembrou do sorriso artificial dela, será que ele estava vivendo uma mentira da qual ele nem se dera conta? Mas quando ele se fez essa pergunta ele esbarrou em um estranho homem de terno surrado, George viu claramente um homem de estatura mediana, de cabelos negros e meio despenteados, sorrir e lhe pedir desculpas, e ao olhar nos olhos dele, George viu seu próprio reflexo, era um homem baixo, já chegando aos cinqüenta, os cabelos escassos escondiam alguns fios brancos. George balançou a cabeça em sinal positivo e continuou andando, em um quintal uma mulher podava os arbustos, em outro gramado duas crianças brincavam nos irrigadores, aquilo o fez se sentir ainda pior, como ele não poderia estar satisfeito com aquela vida? E George respondeu a si mesmo que ele não poderia ficar satisfeito ali enquanto a sombra daquela cidade pairasse sobre ele, não, ele havia vivido aquilo como um sonho, mas agora, como sempre, era a hora de acordar.
Ele parou, á frente a rua era escura, à frente estava A Cidade, e um prédio, como um grande observador, projetava sua sombra à frente de George. Ele se encontrava no limiar entre o subúrbio e a cidade, mas não era só isso, era muito mais, era o limiar entre a luz e a escuridão, entre sonho e realidade. George olhou pra trás ao sentir estar sendo observado, ao longe o homem no qual ele esbarrara há pouco olhava para ele diretamente, e apesar da distância George pôde sentir a expectativa no olhar daquele estranho homem. George virou-se para frente novamente e olhou para as sombras da cidade, ele olhou pra trás novamente, mas ele sabia que aquele subúrbio lhe deixava vazio. O homem de terno surrado observou George abandonar as falsas certezas da luz do subúrbio e ir ao encontro das cruéis e reais dúvidas da escuridão, e por um momento, pareceu que as sombras o agarraram, e talvez elas tenham o feito.

A Cidade

 Eram quase cinco da tarde, e o sino da porta do pequeno restaurante tocava anunciando a chegada de um terceiro cliente. Trudy, a garçonete, observou com o canto do olho o estranho entrar, usava um terno surrado, aquilo era novidade, nos últimos tempos Trudy atendia sempre os mesmos clientes, e até já conhecia a história de cada um. Joe era um fracassado que vivia da pensão da mulher morta e usava-o quase todo com “garotas-da-noite”- como Trudy gostava de chamá-las- e ia todas as quintas naquele restaurante no mesmo horário. Joan era uma ex-modelo que nunca conseguira um só desfile, nos pulsos dela, cicatrizes chamavam a atenção, assim como seu histórico de suicídios fracassados conhecidos em toda aquela podre vizinhança.
O estranho sentou-se, pegou um jornal que datava do dia anterior e começou a lê-lo com aparente entusiasmo, Trudy aproximou-se dele e perguntou-lhe o que ele queria, e ele pediu um café. Trudy saiu e ele continuou a ler o jornal, mas quando Trudy voltou com o café ele já havia se livrado do jornal e apenas olhava ao seu redor, enquanto pegava o café e tomava um gole ele percebeu uma grande variedade de infiltrações nas paredes e no teto, o papel de parede estava rasgado e em algumas partes mofado, ele olhou para o balcão e viu que moscas voavam em volta da cafeteira, olhou rapidamente para o café em sua xícara e voltou a bebê-lo. Ao olhar para uma mesa o estranho percebeu Joe, que usava um boné e uma jaqueta jeans e tinha um olhar perdido, de modo inesperado passou pela cabeça do estranho como aquele homem parecia tão infame e podre, mas que ao mesmo tempo aparentava um amor à sua vida medíocre tão grande que não condizia com sua situação. O estranho virou a cabeça rapidamente afastando aquele pensamento e acabou cruzando o olhar com Trudy, e a garçonete que tinha um uniforme azul-claro sorriu pra ele, e ele retribuiu-lhe o sorriso, ela tinha um rosto afetivo, e, pelo o que o estranho calculava, já passava dos quarenta, e ele imaginou o quão duro deveria ser trabalhar naquele lugar podre, e é claro não gostou nem um pouco dessa imagem.
Joan olhava fixamente para as cicatrizes nos pulsos, ela tinha cabelos longos, e um rosto um tanto bonito, embora marcado por hematomas. Ela vestia um casaco e uma calça jeans e aparentava não mais que 25 anos. De repente, a ex-modelo tirou os olhos dos pulsos e como o estranho, olhou em volta e sentiu um calafrio, lá fora, havia o barulho de motores, buzinas e sirenes, era o barulho da cidade crescendo como um grande tumor. Ela mais uma vez mudou seu olhar para outro lugar e viu Joe, ele olhou para ela distraído, e ela viu os olhos dele cintilarem com um brilho lunático. Ela rapidamente baixou a cabeça e voltou a pensar sobre si mesma, o que Trudy sabia que não era nada bom para a saúde de Joan.
Joe sentiu um desejo intenso ao olhar para Joan, ele sabia que era um monstro, ele sabia que era mais um animal podre, que vinha do ventre fétido daquela cidade corrompida pelo pecado, mas ele não gostava de pensar nisso, ele tinha toda a certeza que a vida só é vivida uma vez e, é claro deve-se vivê-la o melhor possível, mas ao pensar nisso uma mosca voou em volta do seu capuccino, que provavelmente já estava frio, interrompendo-lhe o pensamento, e ele resmungou para si mesmo enquanto espantava a mosca:- Animal nojento!
O estranho assistiu calado á toda cena da troca de olhares entre Joan e Joe até a mosca. E ele riu de Joe, um riso que chamou atenção de todos ali, e que fez todos olharem para ele com um olhar interrogativo e ele virou de lado olhando pela janela que dava para a rua, e ao fazer isso focou rapidamente o olhar no trem que passava ali perto em um viaduto, e ele pensou o quanto ele havia esquecido as pessoas lá fora enquanto estava ali. Mas logo ele desviou o pensamento olhado para a calçada do outro lado da rua, havia um homem em cima de um caixote de madeira fazendo gestos e aparentemente falando alto, ao redor dele, algumas pessoas se reuniam, umas pareciam rir e outras o olhavam sérias com as mãos levantadas para o céu. O estranho pensou consigo que só Deus sabia quantos fanáticos religiosos haviam brotado na cidade nos últimos anos, e de repente passou-lhe pela cabeça uma frase: A fé é o mal do século. Ele tinha lido isso em algum lugar e murmurou para si mesmo: -Ou a solução...
Trudy, que limpava uma mesa observou o estranho se levantar, deixar dinheiro na mesa e sair porta afora, e Joan o imitou. Joe observou-a sair e sorriu. Trudy voltou para trás do balcão e olhou para Joe com um olhar estranho, e ele lentamente virou sua cabeça e a encarou.
O estranho, Joan e mais centenas de pessoas na calçada ouviram um tiro vindo do restaurante, o estranho virou-se e viu a porta do restaurante se abrir...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Desfalecer

Olhava para a janela, lá fora o vento e a chuva dançavam ao fundo a trilha sonora era composta por sirenes, buzinas e arruaceiros. Tentava me lembrar de algo perdido, fazia esforço com a memória e nada conseguia, a meia-luz do apartamento dava-me dor de cabeça.
Virei de súbito para a porta, abria-a e desci as escadas sem pensar, quando me dei conta, estava a dois quarteirões de meu apartamento, segurando o guarda-chuva surrado (o qual não se lembrava de ter pego). Seguia sem rumo, era como se uma névoa cobrisse a tudo e a todos, de tal forma que nem sequer notava os transeuntes que passavam, dirigi-me assim, olhando para o chão, perdido em meus pensamentos, depois de minutos que eu não contava, olhei para frente e percebi que estava perto do Hyde park, segui uma pequena rua e entrei num pub por impulso. Não tinha sede, mas pedi uma cerveja, sentei-me sozinho em uma mesa e olhei ao redor, o lugar estava quase vazio, os que ali se encontravam já estavam bêbados. A chuva aumentava lá fora e os bêbados começavam a cantar uma canção. O dono do pub observava com um meio sorriso.
Eu não havia terminado a caneca, mas não agüentava mais aquela gente odiosa, deixei o dinheiro na mesa e saí do pub. Notei que não mais chovia, caminhei de pressa na direção do parque, estava fechado. Olhei o velho relógio de pulso que me pendia do braço direito, já eram oito horas da noite. Peguei um ônibus para casa, embora me parecesse que simplesmente me dei conta quando estava em meu apartamento de tal fato.
Liguei a televisão, passava o noticiário, mal prestara atenção, mas falava de algum acidente grave. Levantei-me e caminhei até meu quarto e deixei-me cair na cama.
Acordei com o alarme, já eram nove da manhã, a noite fora agitada, tive um sonho em que caía de um penhasco. Levantei e fui para a cozinha, não me lembro o que comi de café-da-manhã.
 Quando me dei conta estava em um vagão de metrô indo para o St. James Park e lembrei-me de súbito que iria encontrar amigos lá, mas não lembrava quem. Saltei, subi até o nível da rua, e mais uma vez parecia-me que estava esquecendo alguma coisa, não um objeto, mas um fato.
Caminhei até o parque tentando lembrar, embora fosse outono, o dia estava ensolarado e as árvores do parque brilhavam à luz do sol, fui até o monumento no parque e notei que vestia roupas que me pareciam estranhas. Depois de alguns minutos sentei-me em um banco próximo. Senti minha cabeça pesar e quando voltei a mim estava deitado no banco, e a noite já havia caído, mas não ousei olhar o relógio, resolvi não voltar para casa de metrô, e caminhei toda a extensão do parque, que estava assustadoramente vazio, cheguei à rua do outro lado do parque e continuei andando sem rumo.
Encontrava-me já numa das inúmeras pontes que cruzam o Tamisa, observava o fluir das águas, e tudo aquilo parecia estranho, parecia que eu estava alheio ao mundo, até mesmo que ninguém parecia me notar.
De repente um forte vento soprou em minha direção, e um pequeno papel parou sob meus pés, agachei e o peguei maquinalmente, examinei-o com cuidado e li uma sequência de números:
23 1 11 5
Por impulso, enfiei o papel em um dos bolsos do casaco e tomei o caminho de casa.
Quando cheguei a meu apartamento, começava a chover, encontrei uma pessoa nas escadas, mas não pude definir seu rosto. Abri a porta do apartamento e coloquei sacolas de compras na cozinha, embora não me lembrasse de ter passado em algum mercado, pensei em ver um médico, uma vez que me parecia que minha memória estava enfraquecendo.
Ao lado da porta, em cima de uma pequena mesa estavam as cartas, que presumia eu, foram colocadas ali por um zelador. Folheei-as e notei que eram apenas propagandas e coisas desse tipo, só depois notei que havia uma carta no chão, toda em branco, sem um selo ou endereço sequer. Abri o envelope, e dentro havia um papel dobrado, desdobrei-o e não havia nada escrito exceto pela combinação de números:
23 1 11 5
Lembrei-me rapidamente do pequeno papel e procurei-o nos bolsos dos casacos, com um desespero que surpreendeu a mim mesmo. Não achei o pequeno papel, cheguei a vasculhar os bolsos das calças e as sacolas de compra e nenhum sinal do papel, mas o que me enchia a cabeça agora é que o mesmo código veio até mim duas vezes no mesmo dia! Pensando nisso anotei-o em minha agenda. Senti uma inexplicável dor de cabeça e deixei-me cair no sofá que se encontrava na sala, liguei a televisão, mas sequer prestei atenção a ela, mantive-me assim, deitado e perdido em meus pensamentos durante toda a noite.
O sol entrou pela janela, embora fraco, fora o bastante para me irritar, levantei-me sem me preocupar em olhar as horas, fui à cozinha, mas desviei-me de meu intuito inicial, quando notei um envelope em cima da bancada. Abri-o, no papel havia um escrito em letras de máquina de escrever, lia-se:
Encontre o que perdeu.
Um endereço encontrava-se logo abaixo desta sentença. Logo me vesti e saí, pondo o envelope dentro do bolso, embora seguisse maquinalmente para o local indicado no papel.
Após alguns minutos andando cheguei a uma rua desconhecida, olhei para um prédio que chamou-me atenção por sua aparência antiga e abandonada, era ali o endereço. Abri a porta do prédio e subi as escadas até o andar citado na carta, a luz ali era pouca, mas foi o suficiente para que distinguisse os números logo acima do apartamento no qual deveria entrar, parei de súbito e fitei a porta, tinha um aspecto empoeirado e velho, mas sua maçaneta de latão brilhava. Dei um passo e abri a porta, que estava destrancada, e me espantei, uma vez que a porta não emitiu um som sequer.
Entrei no apartamento, era pequeno, sem divisões nem janelas, apenas simples quatro paredes forradas com azulejos impecavelmente brancos, talvez nunca houvesse visto um lugar tão branco e limpo. Do teto pendia uma lâmpada, mas o lugar parecia tão iluminado quanto o dia ensolarado. Procurei com olhos descontraídos um interruptor que não pude achar. Olhei para a parede paralela à porta, e vi um grande espelho que cobria toda a extensão desta. Observei meu reflexo e fui de encontro a ele, cheguei bem próximo ao espelho, mas diferentemente de qualquer outro espelho, minha respiração não o embaçava.
Fixei então meus olhos no reflexo e permaneci olhando o reflexo de meus olhos tão compenetradamente que nenhum pensamento me passava pela cabeça. De repente um intenso som agudo invadiu meus ouvidos, e uma forte dor de cabeça me atingiu. Desnorteado olhei para o espelho novamente e vi a sequência que antes havia visto, escrita no espelho. Senti minhas pernas fraquejarem, meus braços doíam terrivelmente, e de repente lembrei-me da noite no pub, mas notei que não reparara nos rostos dos bêbados ou do dono do lugar, lembrei-me também do dia em que fora ao St. James Park, e lembrei-me que não encontrei nenhum amigo lá. E rapidamente tentei me lembrar da última vez que reparara no rosto de alguém ou da última vez que conversei com alguém, e nada me ocorreu.
Olhei novamente para o espelho, a sequência não mais estava lá, mas agora havia uma palavra, que parecia ter sido arranhada na superfície do espelho, mas não daquele lado do espelho, passei minha mão sobre as letras e não havia nenhuma ranhura seque no espelho. A palavra, que se encontrava escrita ao contrário era:
ACORDE
Um forte clarão atingiu meus olhos e senti-me desfalecer. Ao fundo tacava uma música. Abri os olhos, não havia ninguém por perto, estava agora em um chão duro, em uma noite escura e a neve caía sobre mim. Fechei os olhos, tentando não sentir a dor que me atingia todo o corpo. A escuridão cercou-me e o branco da neve foi maculado pelo sangue.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Vingança

Era uma terça feira à noite, chovia, mas ele não usava o guarda-chuva. O revólver no bolso de seu sobretudo parecia pesar toneladas, sua mão tateava o ferro frio e ele não conseguia concentrar-se em seus pensamentos, apesar do vento o chapéu permanecia-lhe na cabeça.
Ele estava agora determinado a pôr em pratica aquilo que tinha planejado por meses, o mundo era agora um mero cenário para uma vingança esperada há muito. Embora passasse agora de seus vinte anos, imaginava o momento da vingança desde os 15, lembrou-se mais uma vez de um episodio em que ele fora importunado, e quase sem perceber surgiu-lhe no rosto um sorriso doentio, iluminado pelas lâmpadas amarelas da rua, não tirara a mão do revolver uma só vez desde que saíra de seu apartamento.
Despertando-se da hipnose causada pelo revolver, entrou em um táxi e pediu ao motorista que lhe levasse à rua do subúrbio em que seu alvo morava. Não ensaiara nada, não sabia se o sujeito morava sozinho, ou sequer se estaria em casa àquela hora, mas assim que chegou à rua indicada percebeu que ali, seu crime não seria notado. A iluminação era pouca e o bairro exalava um cheiro de sofrimento, saiu do táxi e o motorista o observou deixar dinheiro suficiente para a passagem no banco de trás. A chuva era mais forte agora, e apesar disso, dava passos lentos até um prédio há muito sem tinta. Os sapatos pisavam nas poças sem piedade, o vento fazia o sobretudo tremular.
Depois de alguns momentos parado em frente ao prédio, examinando-o, entrou. Ali dentro não era nem um pouco melhor que a rua, a iluminação péssima tinha um ar doente, e o frio era intenso, provavelmente pela falta de aquecedores. Não se ouvia um ruído sequer. Começou a subir as escadas segurando novamente o revolver dentro do bolso.
Chegou ao andar desejado, e observou as portas que ali haviam, foi então rapidamente ao apartamento de seu alvo. Pressionou uma campainha elétrica que ele duvidara que funcionasse. Depois de alguns minutos pôde ouvir o som de passos pesados vindo em direção à porta, do outro lado uma voz perguntou quem estava ali, o homem do lado de fora respondeu que era um velho amigo, e apesar da clara desconfiança o alvo abriu a porta e convidou-o a entrar.
O apartamento era velho, e a sala de estar possuía uma poltrona rasgada e uma pequena televisão que ficava em cima de um móvel velho de uma madeira quase totalmente podre, o alvo era gordo, careca, tinha a barba por fazer e usava uma simples calça jeans. Este se desculpou, explicou que não recebia muitas visitas e prestativamente trouxe uma velha cadeira para que a visita sentasse e esta não a recusou.
A visita explicava quem era, e o homem ouviu-lhe falar, e após alguns minutos parecendo confuso disse:- Lembro-me de você, não está nada mal para o pequeno homem que era! Parece que as coisas vão bem para você- disse isso fitando sua vestimenta-, mas acho que pode perceber que pra mim as coisas saíram do rumo. Terminando esta frase, o homem corpulento virou seu olhar para o chão, parecendo arrependido pelos erros passados. A visita acenou com a cabeça para uma garrafa de vodka e uma pistola em cima do móvel onde estava a TV e perguntou:- Bem, parece que tinha planos para essa noite, não?
O dono do apartamento riu forçadamente e disse:- Existem dias em que a vida parece tão insignificante e sofrida! Sabe, gostaria de voltar à época do colégio, em que éramos peças num tabuleiro bem menor não acha?
A visita deu um sorriso irônico e retrucou:- Embora sejamos peões, podemos ainda ser coroados. Mas não façamos jogos metafóricos, vamos ao que interessa.
O visitante levantou-se da cadeira lentamente e se encaminhou à garrafa de vodka, encheu um copo, deu a garrafa ao dono e disse:- Pelos bons e velhos tempos!
O homem de sobretudo virou o copo, enquanto o outro bebeu um grande gole diretamente da garrafa. O visitante então colocou a mão no bolso tocando uma vez mais o frio, porém reconfortante revólver, sacou-o vagarosamente e apontou-o para o homem sentado na poltrona, este nem sequer se moveu, esboçou apenas um leve sorriso. O gatilho estava levemente pressionado e o homem com o revólver disse mais uma vez quase gritando:- Pelos bons e velhos tempos!
Ouviu-se então o tiro e o sangue espalhou-se no chão do apartamento, a poltrona estava banhada de sangue, e de repente uma risada incontrolável acometeu ao vingador, uma risada doentia que permaneceu com ele enquanto descia as escadas, mas quando pisou na calçada ela cessou. A mão permanecia no revólver, que agora estava morno, a chuva, que ainda caía, lavava uma alma elevada pela vingança.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Passado Esquecido

Eu tenho notado que se torna cada vez mais frequente o descaso das pessoas com o passado, é prática frequente no mundo atual, em que o presente é o mais importante dos tempo e o futuro está apenas a um passo de distância,o esquecimento do passado, tenta-se fazer o impossível: apagar o passado. Imagino o que nossos antepassados pensariam de nós, será que o sangue deles foi derramado em vão?Unicamente para que nós esquecessamos deles e nos tornem animais sem história?
Não, o sangue não foi e não será derramado em vão. O passado não é uma cicatriz da qual deve-se ter vergonha, ele é mais que isso, o passado serve de exemplo, para que aprendamos com os erros e consideramos os acertos. Ao invés de temer o passado, é essencial pensar nele como o molde e a base de nossas ações, e enquanto isso, temamos o futuro, pois ele é incerto e poderoso.