O alarme tocava incessantemente, Alan abriu os olhos ainda cansados e caminhou maquinalmente até o banheiro, escovou os dentes e viu seu reflexo no espelho, a barba, não feita há três semanas, apresentava alguns pelos brancos. Os cabelos castanhos escuros se tornavam cada vez mais grisalhos, ele olhou nos olhos negros de seu reflexo, e por um momento ínfimo, não reconheceu aquele olhar vazio, sem nenhuma dor, sem nenhuma perspectiva de seu futuro, naqueles olhos havia apenas frustração, medo e loucura.
Ele saiu do banheiro ainda com sono, dirigiu-se à pequena cozinha e bebeu uma xícara de café que estivera lá desde a noite passada, e finalmente dirigiu-se ao computador, Alan fitou o teclado, esperando que algo lhe aparecesse na mente. Nada. Naquele casebre de madeira reinava o silêncio, interrompido apenas pelo tic-tac irritante do velho relógio na sala de estar, que pendia na parede sobre o computador.
O tempo se arrastava na mente distraída de Alan, e ele agora lembrava de que estivera morando ali, longe de tudo, há um ano. Mas não adiantara nada, não havia inspiração naquele lugar, havia apenas silêncio. Alan se levantou e pegou seu casaco, abriu a porta e foi caminhando na pequena estrada de terra que dava para a cidade que ficava a apenas quinze minutos dali. Era outono, e a brisa fria fazia as folhas de diferentes cores que caíam das árvores que margeavam a pequena estrada voarem, formando um espetáculo de cores que sequer chamava a atenção de Alan, ele olhava para o chão em um quase transe, seguindo sabe-se lá porque o caminho para aquela pequena cidade.
Depois de algum tempo caminhando ele chegou à entrada da cidade, Alan olhou ao redor, a cidade estava vazia, a rua principal tinha algumas lojas, todas construídas com tijolos vermelhos, mais à frente havia um bar com uma aparência muito mais velha que as outras construções ali. Alan seguiu até o bar e adentrou-o por impulso. Nas mesas de madeira velha havia alguns clientes, todos olharam para Alan com olhares desconfiados, afinal ele vinha raramente na cidade e nunca havia entrado naquele estabelecimento. Alan não ligou para os observadores e sentou num banco surrado no balcão, o atendente, que possuía uma espessa barba e cabelos negros que saíam por debaixo do gorro que usava, perguntou a ele: - O que vai querer? Alan olhou para o atendente com o mesmo olhar vazio. E finalmente pediu uma cerveja. Após alguns instantes uma grande caneca com aquele liquido amarelo estava na sua frente, o gosto era terrivelmente amargo, mas isso não incomodou Alan, enquanto ele tomava mais um gole de sua caneca, um homem com uma camisa xadrez sentou do seu lado em um banco igualmente velho, pediu uma dose de whisky e perguntou à Alan: - Você não é aquele escritor famoso, Alan Bale? Alan examinou o interrogador e viu um homem magro e de aparência velha. Ele finalmente respondeu enquanto olhava para as garrafas atrás do balcão: - Sou. E ao falar isso Alan lembrou de que tivera um livro de sucesso há dois anos (mas parecia-lhe que se passara uma eternidade desde então) apesar do sucesso do seu livro, ele odiava aquilo, ele escrevera o livro unicamente para agradar a editora, sentia vergonha de si mesmo. Alan deu um ultimo gole na caneca de cerveja e saiu do bar sem nem mesmo uma explicação ao seu interrogador. Ele olhou ao redor e foi ao encontro de uma loja de armas próxima dali. Um homem careca e com uma roupa camuflada observou a porta se abrir e Alan entrar na loja. Nas paredes havia armas penduradas, o balcão, feito de madeira e vidro, exibia revolveres e munição. O homem que observava Alan perguntou: - O que deseja senhor? Alan respondeu distraído: - Só estou olhando. Alan olhava para os rifles na parede, lembrando-se de que sempre for a fascinado por armas, parte disso talvez tivesse ligada ao seu pai, que muitas vezes o levava para caçar, mas ele adorava o poder e a liberdade que uma arma traz a qualquer um que a empunhe, talvez ele precisasse de uma arma, e ao pensar nisso ele estremeceu lembrando-se da sensação que teve quando atirou pela primeira vez, era verão, e Alan tinha apenas onze anos, seu pai lhe dera o seu revólver .357 para que ele atirasse numa lata de cerveja. Mas aquilo tudo era passado e ele voltava à loja de armas segurando um rifle de caça de longo alcance, sem pensar Alan pôs o rifle no balcão e tirou um bolo de notas do casaco, pediu munição e pagou tudo ao atendente, que mais uma vez observou a porta se abrir, desta vez para a saída de Alan.
O escritor andava mais uma vez na estrada de terra, indo agora em direção à sua cabana com o rifle pendurado no ombro por uma bandoleira. A brisa batia nas folhas, criando um som que clamava por Alan, havia na linha das árvores uma leve névoa que encobria o chão coberto por folhas da floresta. Alan adentrava a floresta sentindo a fria névoa tocar suas calças, ali tudo era quieto e Alan podia observar as folhas caindo das árvores como uma chuva de cores, ele seguiu pela floresta, na esperança de algo que ele não sabia o que era, havia naquilo tudo um ar místico, ou talvez fosse apenas a imaginação daquele escritor frustrado. Alan seguiu mais ainda na floresta e viu, ao longe, um cervo que estava parado, o escritor posicionou a arma em um instante, e olhou através da mira telescópica, quando o ponto vermelho da mira chegou à cabeça do cervo, Alan atirou. O tiro ecoou pela floresta e o sangue vermelho misturou-se às folhas amarelas e marrons do chão, e Alan caminhou até o cervo, e sem pensar ajoelhou ao lado dele e deitou a cabeça em seu abdômen e conseguiu sentir a vida esvair-se daquela bela criatura. Ele tirou o rifle do ombro e o colocou sobre o cervo. Ele olhou ao redor e percebeu que não havia mais névoa e que a própria brisa constante cessara, olhando para o alto parecia-lhe que as copas das árvores o observavam, Alan então andou rápido em direção à estrada de terra, mas a floresta parecia não terminar, depois de caminhar sem rumo ele chegou a um pequeno riacho, a água limpa corria devagar, Alan aproximou-se do riacho e, percebendo que tinha sangue do cervo nas mãos, as mergulhou na água e viu o sangue ser levado pela água, tão límpida que ele pode ver seu reflexo. Seu cabelo estava desarrumado, a barba estava suja de sangue, além de conter pelos de cervo. Seu olhar não era mais vazio, havia nele o fogo dos olhos de alguém que acabara de matar, aquela sensação de poder, como se a vida tirada fosse acrescentada à sua própria, ele nunca havia sentido aquilo, ele talvez tivesse vislumbrado aquela sensação enquanto escrevia seus livros, mas nada se comparava àquela sensação. Ele mergulhou o rosto na água, deixando-a fluir e logo depois retirando-o, de repente a brisa de outono voltara, e novamente caíam as folhas daquelas árvores, o mundo fluía gentilmente como a água que fluía em sua face há pouco e tudo parecia bem, mas mesmo assim, Alan sentiu uma enorme necessidade de voltar à cabana, voltar à si mesmo. Ele seguiu sem saber aonde ia e acabou chegando a sua cabana no fim da tarde. A porta rangeu quando ele a abriu, Alan tirou o casaco e o jogou em cima do sofá, ele sentou-se à frente do computador como havia feito antes e começou a escrever, o barulho das teclas pressionadas enchia a casa com o esplendor da imaginação e da libertação daquela pobre alma.
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