É noite na cidade e, apesar disso, nada é calmo, as pessoas andam, se movimentam, esquivam-se uma das outras em uma dança epilética. O casaco que cobria o terno voava levemente na brisa calma da noite, que não combinava com as pessoas loucas em sua movimentação frenética.
Por trás do terno surrado, ele podia sentir o peso do bronze que havia em seu distintivo, ele era só mais um entre todos aqueles, pelo menos enquanto não mostrasse o distintivo, era estranho como as pessoas depravadas daquela cidade se intimidavam com os policiais, ele pensava que talvez fosse pela enorme quantidade de policiais corruptos que andavam pela cidade. A cidade é assim, ela clama pelo pior lado de todas as pessoas, e era em noites como aquela que podia se ouvir a respiração tísica da cidade, ela implorava por tudo e todos em uma sinfonia de buzinas, sirenes e vozes confusas, os grandes prédios ali no centro observavam-no como sentinelas, prontas para esmagar o primeiro que se atrevesse a ir contra o rumo podre que todas as pessoas da cidade tomavam. Mesmo o inconfundível cheiro da chuva que caía leve, podia disfarçar o cheiro da decomposição moral em que todos se encontravam.
Os guarda-chuvas começavam a se abrir como flores negras que denunciavam a morte na multidão que seguia pela calçada, e ele próprio abriu seu guarda-chuva. Ele sempre soube que seria assim, ser investigador da polícia naquela cidade era um trabalho árduo, algo que poucos se candidatavam à ser, e era por isso que ele nem sequer tinha um parceiro, o contingente de investigadores é pequeno demais, era o que disse seu chefe. E talvez por esse descaso ou talvez por simples falta de vontade, ele não fazia seu trabalho direito há meses, nem sequer dava importância à provas essenciais, e não fazia a mínima questão de ouvir o que testemunhas tinham para dizer. Não ele estava mais preocupado com a cidade e tentava manter-se à salvo dela, mas era impossível, ele tornara-se parte dela, no final ele era apenas um deles, apenas mais um tentando não se molhar em uma chuva que só deus sabe porque caía.
Ele olhou para cima, e viu alguns prédios antigos à sua volta, a verdade era que ele nunca havia se preocupado em olhar para cima e tentar ver a beleza da arquitetura do começo do século passado. As pessoas andavam tão rápidas e mergulhavam-se tão profundamente em seu individualismo torpe, que nunca percebiam as belezas da cidade. Ninguém se preocupava com o alto-relevo da fachada de um prédio “velho”, como diriam alguns, não a ideologia do mercado os forçava a acreditar que apenas o que é novo é bom, e que a modernidade deve varrer a história para debaixo de um tapete inalcançável para as gerações futuras. E ele mesmo agia a favor desses porcos liberais, eles rosnavam, ele os atendia, havia cumplicidade entre ele e aqueles idiotas, afinal a polícia tem a finalidade de agir de acordo com o interesse daqueles que são os mestres de todos os fantoches. Mas então ele se pergunta mentalmente: - Quem está por trás das cortinas? E esta pergunta ecoou pela sua mente, não havia resposta não havia como saber, o sistema é bem arquitetado e a própria cidade é um labirinto, que não deixa ninguém alcançar o pote de ouro, ou neste caso, as linhas que controlam os fantoches.
Olhando ao redor e afastando os pensamentos, ele viu um “colega” (era como chamava os outros policiais) fardado, e seus olhos cintilaram ao imaginar que ninguém sabia o que aqueles idiotas de farda faziam. Eram todos corruptos, mas o investigador perguntou a si mesmo:- Será que a culpa é deles? E ele pode ver que não, eles eram todos coagidos, assim como ele, por uma força maior. A verdade é que ninguém tem realmente as cordas dos fantoches, não naquela cidade. A cidade agia como um tumor, crescia e se espalhava, não só em termos territoriais, mas ela ia se tornando parte de cada um. Cada um deles era um portador daquela doença terrível, mas de repente algo varreu esses pensamentos da sua mente vazia.
Um corpo cortou o ar denso da cidade e caiu com força no chão, as pessoas diminuíam os passos agora, sedentos pela morte, que lhes agradava como um copo de vodka agrada a um alcoólatra, o sangue corria na calçada, e o investigador por um impulso, abaixou seu guarda-chuva e o colocou protegendo o morto e saiu andando, pensando naquela pobre vítima daquela terrível doença que corroia todos eles, a febre da Cidade.