sexta-feira, 27 de maio de 2011

A Cidade 4 :Mistérios de um Homem Comum

É noite na cidade e, apesar disso, nada é calmo, as pessoas andam, se movimentam, esquivam-se uma das outras em uma dança epilética. O casaco que cobria o terno voava levemente na brisa calma da noite, que não combinava com as pessoas loucas em sua movimentação frenética.
Por trás do terno surrado, ele podia sentir o peso do bronze que havia em seu distintivo, ele era só mais um entre todos aqueles, pelo menos enquanto não mostrasse o distintivo, era estranho como as pessoas depravadas daquela cidade se intimidavam com os policiais, ele pensava que talvez fosse pela enorme quantidade de policiais corruptos que andavam pela cidade. A cidade é assim, ela clama pelo pior lado de todas as pessoas, e era em noites como aquela que podia se ouvir a respiração tísica da cidade, ela implorava por tudo e todos em uma sinfonia de buzinas, sirenes e vozes confusas, os grandes prédios ali no centro observavam-no como sentinelas, prontas para esmagar o primeiro que se atrevesse a ir contra o rumo podre que todas as pessoas da cidade tomavam. Mesmo o inconfundível cheiro da chuva que caía leve, podia disfarçar o cheiro da decomposição moral em que todos se encontravam.
Os guarda-chuvas começavam a se abrir como flores negras que denunciavam a morte na multidão que seguia pela calçada, e ele próprio abriu seu guarda-chuva. Ele sempre soube que seria assim, ser investigador da polícia naquela cidade era um trabalho árduo, algo que poucos se candidatavam à ser, e era por isso que ele nem sequer tinha um parceiro, o contingente de investigadores é pequeno demais, era o que disse seu chefe. E talvez por esse descaso ou talvez por simples falta de vontade, ele não fazia seu trabalho direito há meses, nem sequer dava importância à provas essenciais, e não fazia a mínima questão de ouvir o que testemunhas tinham para dizer. Não ele estava mais preocupado com a cidade e tentava manter-se à salvo dela, mas era impossível, ele tornara-se parte dela, no final ele era apenas um deles, apenas mais um tentando não se molhar em uma chuva que só deus sabe porque caía.
Ele olhou para cima, e viu alguns prédios antigos à sua volta, a verdade era que ele nunca havia se preocupado em olhar para cima e tentar ver a beleza da arquitetura do começo do século passado. As pessoas andavam tão rápidas e mergulhavam-se tão profundamente em seu individualismo torpe, que nunca percebiam as belezas da cidade. Ninguém se preocupava com o alto-relevo da fachada de um prédio “velho”, como diriam alguns, não a ideologia do mercado os forçava a acreditar que apenas o que é novo é bom, e que a modernidade deve varrer a história para debaixo de um tapete inalcançável para as gerações futuras. E ele mesmo agia a favor desses porcos liberais, eles rosnavam, ele os atendia, havia cumplicidade entre ele e aqueles idiotas, afinal a polícia tem a finalidade de agir de acordo com o interesse daqueles que são os mestres de todos os fantoches. Mas então ele se pergunta mentalmente: - Quem está por trás das cortinas? E esta pergunta ecoou pela sua mente, não havia resposta não havia como saber, o sistema é bem arquitetado e a própria cidade é um labirinto, que não deixa ninguém alcançar o pote de ouro, ou neste caso, as linhas que controlam os fantoches.
Olhando ao redor e afastando os pensamentos, ele viu um “colega” (era como chamava os outros policiais) fardado, e seus olhos cintilaram ao imaginar que ninguém sabia o que aqueles idiotas de farda faziam. Eram todos corruptos, mas o investigador perguntou a si mesmo:- Será que a culpa é deles? E ele pode ver que não, eles eram todos coagidos, assim como ele, por uma força maior. A verdade é que ninguém tem realmente as cordas dos fantoches, não naquela cidade. A cidade agia como um tumor, crescia e se espalhava, não só em termos territoriais, mas ela ia se tornando parte de cada um. Cada um deles era um portador daquela doença terrível, mas de repente algo varreu esses pensamentos da sua mente vazia.
Um corpo cortou o ar denso da cidade e caiu com força no chão, as pessoas diminuíam os passos agora, sedentos pela morte, que lhes agradava como um copo de vodka agrada a um alcoólatra, o sangue corria na calçada, e o investigador por um impulso, abaixou seu guarda-chuva e o colocou protegendo o morto e saiu andando, pensando naquela pobre vítima daquela terrível doença que corroia todos eles, a febre da Cidade.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Estrelas

Os pés se arrastam pelos degraus do ônibus, o motorista olha lentamente para aquela figura estranha, lá fora cai uma chuva fraca, e o vento gelado de inverno corta os corações como uma faca quente. Naquele meio de transporte, as pessoas são indiferentes, e o mundo parece ser um filme mudo passando em um preto e branco nauseante. Mas há sempre o brilho das estrelas no céu negro, e como uma estrela, os olhos dela brilham, voltando-se como um último raio de esperança para um homem perdido na névoa densa de seus próprios pensamentos.
Aqueles olhos o resgatam, o tiram à força de seu transe febril. E ele se sente vivo pela primeira vez em muito tempo.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Vietnã- Horrores da Guerra

A lama formara uma crosta em suas botas que atraía moscas, os mosquitos se tornaram tão banais que ele nem mesmo os sentia, a umidade era insuportável, e seus inimigos eram invisíveis.
Essa é a descrição do Recruta Mathew O´Donnel, ou Matt como era chamado por seus companheiros, embora ele já perdesse a conta de quanto estivera naquele inferno, faziam-se 513 dias desde que saíra de Boston para entrar nessa maldita guerra, o ano é 1969, quase um ano após a ofensiva do Tet.
Há alguns meses atrás Matt nunca havia posto um cigarro na boca, mas agora ele acendia o sexto no dia, ele aprendera que na guerra, o cigarro é a única coisa que disfarça o cheiro de morte no ar. O capacete o fazia suar como um porco, e o suor fazia o capacete escorregar na sua cabeça. Ele ria ao lembrar que durante o treinamento antes de entrar no campo de batalha, disseram a ele que aquele era o melhor equipamento que um soldado podia ter, e que o rifle que ele carregava desde então, um M-16, era o melhor que havia. No primeiro dia de batalha ele percebera que aquilo tudo era mentira, com alguns dias de uso seu rifle travou durante um assalto à uma aldeia norte - vietnamita, enquanto os VCs(eram assim que chamavam os vietcongs) atiravam sem parar com suas AK-47.
O pelotão agora chegava em uma aldeia, não importa quantas vezes eles fizessem aquilo, nunca seria fácil, nas aldeias todos eram inimigos em potencial, e nenhum dos seus companheiros queria morrer naquele buraco. Para Matt todos os vietnamitas eram iguais, aqueles olhos puxados lhe davam nos nervos. Todos tinham uma cara de zombaria, eram olhos do demônio, ele dizia a seu pelotão. Mas a verdade é que eles se sentiam do mesmo jeito em relação aos Joes(como eram chamados os soldados americanos).
Seu rifle já se tornara parte dele e ele estava atento como nunca, ele apontava a arma para os aldeões, enquanto o capitão gritava algo em vietnamita para eles. De repente um tiro, todos deitaram, Matt olhou ao redor e viu o capitão ferido se arrastando, seu rifle disparou uma rajada de morte em um aldeão próximo. Um homem de seu pelotão gritava freneticamente enquanto arremessava granadas:- Fogo na área! Os outros atiravam para todos os lados e o cabo que tinha o rádio pedia apoio aéreo. Era tudo uma loucura. Matt correu para trás de uma pedra próxima e tirou algo do bolso, o capitão havia lhe dado aquilo para uma ocasião de risco, era uma pílula. Ele a enfiou goela abaixo e começou a atirar nos vietnamitas, ele viu uma mulher tombar morta com um tiro que lhe arrebentou a cabeça, não havia nada de novo nisso, Matt repetia para si mesmo, enquanto atirava. O homem do rádio gritou:- Apoio aéreo iminente! Matt sabia muito bem que era hora de correr de volta para fora da aldeia, os F-4 Phantoms não eram lá muito precisos com suas cargas de Napalm. E então ele ouviu o barulho ensurdecedor dos motores daqueles anjos da morte, Matt olhou para trás a tempo de ver o Napalm detonar e pôr fogo em toda a aldeia, os VCs corriam enquanto pegavam fogo, a cabeça do recruta rodava e ele pôs a cara no chão lamacento da floresta e pôs sua ração diária para fora. Era Guerra, Era o Vietnã.

Névoa do Outono

O alarme tocava incessantemente, Alan abriu os olhos ainda cansados e caminhou maquinalmente até o banheiro, escovou os dentes e viu seu reflexo no espelho, a barba, não feita há três semanas, apresentava alguns pelos brancos. Os cabelos castanhos escuros se tornavam cada vez mais grisalhos, ele olhou nos olhos negros de seu reflexo, e por um momento ínfimo, não reconheceu aquele olhar vazio, sem nenhuma dor, sem nenhuma perspectiva de seu futuro, naqueles olhos havia apenas frustração, medo e loucura.
Ele saiu do banheiro ainda com sono, dirigiu-se à pequena cozinha e bebeu uma xícara de café que estivera lá desde a noite passada, e finalmente dirigiu-se ao computador, Alan fitou o teclado, esperando que algo lhe aparecesse na mente. Nada. Naquele casebre de madeira reinava o silêncio, interrompido apenas pelo tic-tac irritante do velho relógio na sala de estar, que pendia na parede sobre o computador.
O tempo se arrastava na mente distraída de Alan, e ele agora lembrava de que estivera morando ali, longe de tudo, há um ano. Mas não adiantara nada, não havia inspiração naquele lugar, havia apenas silêncio. Alan se levantou e pegou seu casaco, abriu a porta e foi caminhando na pequena estrada de terra que dava para a cidade que ficava a apenas quinze minutos dali. Era outono, e a brisa fria fazia as folhas de diferentes cores que caíam das árvores que margeavam a pequena estrada voarem, formando um espetáculo de cores que sequer chamava a atenção de Alan, ele olhava para o chão em um quase transe, seguindo sabe-se lá porque o caminho para aquela pequena cidade.
Depois de algum tempo caminhando ele chegou à entrada da cidade, Alan olhou ao redor, a cidade estava vazia, a rua principal tinha algumas lojas, todas construídas com tijolos vermelhos, mais à frente havia um bar com uma aparência muito mais velha que as outras construções ali. Alan seguiu até o bar e adentrou-o por impulso. Nas mesas de madeira velha havia alguns clientes, todos olharam para Alan com olhares desconfiados, afinal ele vinha raramente na cidade e nunca havia entrado naquele estabelecimento. Alan não ligou para os observadores e sentou num banco surrado no balcão, o atendente, que possuía uma espessa barba e cabelos negros que saíam por debaixo do gorro que usava, perguntou a ele: - O que vai querer? Alan olhou para o atendente com o mesmo olhar vazio. E finalmente pediu uma cerveja. Após alguns instantes uma grande caneca com aquele liquido amarelo estava na sua frente, o gosto era terrivelmente amargo, mas isso não incomodou Alan, enquanto ele tomava mais um gole de sua caneca, um homem com uma camisa xadrez sentou do seu lado em um banco igualmente velho, pediu uma dose de whisky e perguntou à Alan: - Você não é aquele escritor famoso, Alan Bale? Alan examinou o interrogador e viu um homem magro e de aparência velha. Ele finalmente respondeu enquanto olhava para as garrafas atrás do balcão: - Sou. E ao falar isso Alan lembrou de que tivera um livro de sucesso há dois anos (mas parecia-lhe que se passara uma eternidade desde então) apesar do sucesso do seu livro, ele odiava aquilo, ele escrevera o livro unicamente para agradar a editora, sentia vergonha de si mesmo. Alan deu um ultimo gole na caneca de cerveja e saiu do bar sem nem mesmo uma explicação ao seu interrogador. Ele olhou ao redor e foi ao encontro de uma loja de armas próxima dali. Um homem careca e com uma roupa camuflada observou a porta se abrir e Alan entrar na loja. Nas paredes havia armas penduradas, o balcão, feito de madeira e vidro, exibia revolveres e munição. O homem que observava Alan perguntou: - O que deseja senhor?  Alan respondeu distraído: - Só estou olhando. Alan olhava para os rifles na parede, lembrando-se de que sempre for a fascinado por armas, parte disso talvez tivesse ligada ao seu pai, que muitas vezes o levava para caçar, mas ele adorava o poder e a liberdade que uma arma traz a qualquer um que a empunhe, talvez ele precisasse de uma arma, e ao pensar nisso ele estremeceu lembrando-se da sensação que teve quando atirou pela primeira vez, era verão, e Alan tinha apenas onze anos, seu pai lhe dera o seu revólver .357 para que ele atirasse numa lata de cerveja. Mas aquilo tudo era passado e ele voltava à loja de armas segurando um rifle de caça de longo alcance, sem pensar Alan pôs o rifle no balcão e tirou um bolo de notas do casaco, pediu munição e pagou tudo ao atendente, que mais uma vez observou a porta se abrir, desta vez para a saída de Alan.
O escritor andava mais uma vez na estrada de terra, indo agora em direção à sua cabana com o rifle pendurado no ombro por uma bandoleira. A brisa batia nas folhas, criando um som que clamava por Alan, havia na linha das árvores uma leve névoa que encobria o chão coberto por folhas da floresta. Alan adentrava a floresta sentindo a fria névoa tocar suas calças, ali tudo era quieto e Alan podia observar as folhas caindo das árvores como uma chuva de cores, ele seguiu pela floresta, na esperança de algo que ele não sabia o que era, havia naquilo tudo um ar místico, ou talvez fosse apenas a imaginação daquele escritor frustrado. Alan seguiu mais ainda na floresta e viu, ao longe, um cervo que estava parado, o escritor posicionou a arma em um instante, e olhou através da mira telescópica, quando o ponto vermelho da mira chegou à cabeça do cervo, Alan atirou. O tiro ecoou pela floresta e o sangue vermelho misturou-se às folhas amarelas e marrons do chão, e Alan caminhou até o cervo, e sem pensar ajoelhou ao lado dele e deitou a cabeça em seu abdômen e conseguiu sentir a vida esvair-se daquela bela criatura. Ele tirou o rifle do ombro e o colocou sobre o cervo. Ele olhou ao redor e percebeu que não havia mais névoa e que a própria brisa constante cessara, olhando para o alto parecia-lhe que as copas das árvores o observavam, Alan então andou rápido em direção à estrada de terra, mas a floresta parecia não terminar, depois de caminhar sem rumo ele chegou a um pequeno riacho, a água limpa corria devagar, Alan aproximou-se do riacho e, percebendo que tinha sangue do cervo nas mãos, as mergulhou na água e viu o sangue ser levado pela água, tão límpida que ele pode ver seu reflexo. Seu cabelo estava desarrumado, a barba estava suja de sangue, além de conter pelos de cervo. Seu olhar não era mais vazio, havia nele o fogo dos olhos de alguém que acabara de matar, aquela sensação de poder, como se a vida tirada fosse acrescentada à sua própria, ele nunca havia sentido aquilo, ele talvez tivesse vislumbrado aquela sensação enquanto escrevia seus livros, mas nada se comparava àquela sensação. Ele mergulhou o rosto na água, deixando-a fluir e logo depois retirando-o, de repente a brisa de outono voltara, e novamente caíam as folhas daquelas árvores, o mundo fluía gentilmente como a água que fluía em sua face há pouco e tudo parecia bem, mas mesmo assim, Alan sentiu uma enorme necessidade de voltar à cabana, voltar à si mesmo. Ele seguiu sem saber aonde ia e acabou chegando a sua cabana no fim da tarde. A porta rangeu quando ele a abriu, Alan tirou o casaco e o jogou em cima do sofá, ele sentou-se à frente do computador como havia feito antes e começou a escrever, o barulho das teclas pressionadas enchia a casa com o esplendor da imaginação e da libertação daquela pobre alma.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A Cidade 3:Céu Noturno

As escadas estavam empoeiradas, embora em bom estado. O prédio era antigo, era um daqueles prédios que se destacava por ter apenas cinco andares, enquanto estava rodeado por arranha-céus, Tom morava ali desde que começou seu trabalho como contador numa grande compania há um ano. Tom abriu a porta que dava para o telhado com certo receio do que iria encontrar ali, a porta rangeu lentamente enquanto se abria, deixando o ar fresco da noite fazer os cabelos castanhos dele ondularem. A noite na cidade era singular, o céu negro envolvia a cidade como um manto que cobre um cadáver, não havia estrelas no céu, e o brilho da lua crescente era fraco, ofuscado pela lâmpada em cima da porta, Tom olhou para o lado e percebeu que seu vizinho, Harry, estava sentado no chão do telhado com as costas recostadas no parapeito, ele fumava um charuto, e seus olhos cinzentos pareciam procurar alguma coisa na noite. Tom deu alguns passos lentos, debruçou-se sobre o parapeito ao lado de Harry e observou a rua, os carros andavam freneticamente e as pessoas tinham passos apressados que os levavam para lugar nenhum, as luzes dos prédios ao redor eram fortes e espantavam a escuridão noturna, o charuto de Harry exalava um odor estimulante, e ele, olhando para Tom disse:- É cubano. Quer um trago? E Tom olhou para o homem de trinta e poucos anos e cabelos já grisalhos com um ar interrogativo, mas acabou aceitando, Tom sentou e por um momento observou o charuto queimar, depois de devolvê-lo a Harry, ele olhou para cima tentando lembrar o que pretendia fazer naquele telhado. Harry de repente perguntou:- O céu está tão escuro e provocante como essa cidade, não acha? Tom permaneceu calado por alguns minutos e depois respondeu:- Acho.
Um avião passava sozinho na escuridão daquele céu que parecia infinito, e Tom se perguntou o que as pessoas naquele avião veriam se olhassem para baixo, será que veriam apenas um ponto brilhante, pequeno o bastante para escapar da vista? Ou veriam um ponto negro, mais escuro que o próprio céu noturno? E ele não soube responder.
Uma chuva fina começava cair, e as frias gotas eram as únicas coisas que mantinham Tom acordado. Ele se levantou para tentar espantar o sono, as pernas por um momento fraquejaram, ele olhou para baixo, nas calçadas era possível ver centenas de guarda-chuvas movendo-se em um fluxo constante. Mas aquela sua contemplação foi interrompida pela voz forte de Harry:- Sabe, eu fui criado nessa Cidade, e tenho que admitir que tive uma bela infância, mas tudo mudou desde então, tudo se tornou mais sombrio, A Cidade cresceu, se tornou mais do que apenas um lugar, mais do que apenas uma cidade, você vai me chamar de louco, mas ela adquiriu quase que vida própria, você sabe, A Cidade muda as pessoas...
Tom olhou vagarosamente para Harry, tentando entender o que ele falava, mas o sono e a chuva só deixaram que ele ouvisse uma parte. Os cabelos já encharcados caíam-lhe sobre os olhos, mas ele viu Harry se levantar e olhar para baixo, e ele observou um guarda-chuva ser levado por uma súbita rajada de vento. Tom foi andando vagarosamente até a porta que dava para as escadas, ele reteve-se na porta e ficou observando Harry por alguns instantes e finalmente perguntou:-Você não vem?
Harry apenas fez um gesto com a mão para que Tom descesse, este deu de ombros e arrastou os pés pelas escadas. Harry olhou para o céu, e a escuridão mesclou-se à clara névoa que se formava, ele olhou mais uma vez para baixo e então deixou-se cair. Logo seu corpo imóvel interrompeu o fluxo de guarda-chuvas, a chuva misturou-se ao sangue que corria. Um homem com um terno surrado se abaixou, deixou um guarda-chuva protegendo o corpo e se foi na multidão, seus olhos vidrados refletiam a escuridão da noite.

A Cidae 2: Subúrbio

Há dois anos George mudara-se com sua família para aquele subúrbio, e agora ele percebia, enquanto abria a porta de casa, que desde que se mudou sua vida passara como um vulto em sua frente, ele não tinha muitas memórias que pudesse evocar agora sobre aquele lugar. A esposa aproximou-se e lhe recebeu com um abraço, os filhos vieram correndo para ele, e George permanecia impassível, finalmente se dando conta de que tudo aquilo era artificial demais. Um pensamento passou nebulosa e rapidamente por sua cabeça, ele, por um mísero instante enquanto saía maquinalmente do banho, lembrou-se de um verso uma música que descreveria perfeitamente aquele subúrbio isolado da cidade imunda: “Fileiras de casas que são todas iguais, e ninguém parece se importar”.
Enquanto jantava com a família em silêncio ele pensava o quanto almejara aquele momento durante toda a sua vida, mas agora que ele finalmente vivia seu objetivo, ele se sentia vazio, sentia-se fora daquilo tudo, mas apesar dos pensamentos atormentadores ele dormiu rapidamente, esperando que o domingo o fizesse sentir bem.
Depois de tomar o café-da-manhã, George saíra para seu quintal com seu gramado verde e as flores no jardim feito por sua mulher. Ele sentou na entrada da casa e observou ao redor, do outro lado da rua o vizinho cortava a grama com um sorriso no rosto, há algumas casas dali crianças jogavam baseball, e George se lembrou de quando tudo aquilo à sua volta era um sonho e seu objetivo, mas agora que estava ali ele sentia que, apesar de toda a perfeição à sua volta, ele não era feliz, unicamente porque ele vivia a sua vida sem um objetivo sem nenhuma ambição, ele chegara ao topo e não havia como subir mais, a única maneira de sair dali era descer. O reflexo brilhante do Sol na janela de uma casa logo afastou os seus pensamentos e ele desviou o olhar para as crianças que jogavam bola e pensou que aquele era o mundo perfeito para elas, justamente porque aquelas crianças não conheciam o que rodeava aquele subúrbio, elas nunca haviam entrado nas sombras da cidade, nunca viram o que ele havia visto: as atrocidades, as incertezas daquela cidade corrompida. Ali, naquele subúrbio perfeito, elas estavam a salvo das dúvidas e viviam conforme a certeza de que tudo sempre dava certo.
George levantou-se e resolveu fazer uma caminhada pela vizinhança, ali tudo era quieto, a única coisa que rompia a camada de silêncio era o canto dos pássaros, por um instante ele pensou no que sua esposa andava fazendo enquanto ele estava no trabalho, e ele se lembrou do sorriso artificial dela, será que ele estava vivendo uma mentira da qual ele nem se dera conta? Mas quando ele se fez essa pergunta ele esbarrou em um estranho homem de terno surrado, George viu claramente um homem de estatura mediana, de cabelos negros e meio despenteados, sorrir e lhe pedir desculpas, e ao olhar nos olhos dele, George viu seu próprio reflexo, era um homem baixo, já chegando aos cinqüenta, os cabelos escassos escondiam alguns fios brancos. George balançou a cabeça em sinal positivo e continuou andando, em um quintal uma mulher podava os arbustos, em outro gramado duas crianças brincavam nos irrigadores, aquilo o fez se sentir ainda pior, como ele não poderia estar satisfeito com aquela vida? E George respondeu a si mesmo que ele não poderia ficar satisfeito ali enquanto a sombra daquela cidade pairasse sobre ele, não, ele havia vivido aquilo como um sonho, mas agora, como sempre, era a hora de acordar.
Ele parou, á frente a rua era escura, à frente estava A Cidade, e um prédio, como um grande observador, projetava sua sombra à frente de George. Ele se encontrava no limiar entre o subúrbio e a cidade, mas não era só isso, era muito mais, era o limiar entre a luz e a escuridão, entre sonho e realidade. George olhou pra trás ao sentir estar sendo observado, ao longe o homem no qual ele esbarrara há pouco olhava para ele diretamente, e apesar da distância George pôde sentir a expectativa no olhar daquele estranho homem. George virou-se para frente novamente e olhou para as sombras da cidade, ele olhou pra trás novamente, mas ele sabia que aquele subúrbio lhe deixava vazio. O homem de terno surrado observou George abandonar as falsas certezas da luz do subúrbio e ir ao encontro das cruéis e reais dúvidas da escuridão, e por um momento, pareceu que as sombras o agarraram, e talvez elas tenham o feito.

A Cidade

 Eram quase cinco da tarde, e o sino da porta do pequeno restaurante tocava anunciando a chegada de um terceiro cliente. Trudy, a garçonete, observou com o canto do olho o estranho entrar, usava um terno surrado, aquilo era novidade, nos últimos tempos Trudy atendia sempre os mesmos clientes, e até já conhecia a história de cada um. Joe era um fracassado que vivia da pensão da mulher morta e usava-o quase todo com “garotas-da-noite”- como Trudy gostava de chamá-las- e ia todas as quintas naquele restaurante no mesmo horário. Joan era uma ex-modelo que nunca conseguira um só desfile, nos pulsos dela, cicatrizes chamavam a atenção, assim como seu histórico de suicídios fracassados conhecidos em toda aquela podre vizinhança.
O estranho sentou-se, pegou um jornal que datava do dia anterior e começou a lê-lo com aparente entusiasmo, Trudy aproximou-se dele e perguntou-lhe o que ele queria, e ele pediu um café. Trudy saiu e ele continuou a ler o jornal, mas quando Trudy voltou com o café ele já havia se livrado do jornal e apenas olhava ao seu redor, enquanto pegava o café e tomava um gole ele percebeu uma grande variedade de infiltrações nas paredes e no teto, o papel de parede estava rasgado e em algumas partes mofado, ele olhou para o balcão e viu que moscas voavam em volta da cafeteira, olhou rapidamente para o café em sua xícara e voltou a bebê-lo. Ao olhar para uma mesa o estranho percebeu Joe, que usava um boné e uma jaqueta jeans e tinha um olhar perdido, de modo inesperado passou pela cabeça do estranho como aquele homem parecia tão infame e podre, mas que ao mesmo tempo aparentava um amor à sua vida medíocre tão grande que não condizia com sua situação. O estranho virou a cabeça rapidamente afastando aquele pensamento e acabou cruzando o olhar com Trudy, e a garçonete que tinha um uniforme azul-claro sorriu pra ele, e ele retribuiu-lhe o sorriso, ela tinha um rosto afetivo, e, pelo o que o estranho calculava, já passava dos quarenta, e ele imaginou o quão duro deveria ser trabalhar naquele lugar podre, e é claro não gostou nem um pouco dessa imagem.
Joan olhava fixamente para as cicatrizes nos pulsos, ela tinha cabelos longos, e um rosto um tanto bonito, embora marcado por hematomas. Ela vestia um casaco e uma calça jeans e aparentava não mais que 25 anos. De repente, a ex-modelo tirou os olhos dos pulsos e como o estranho, olhou em volta e sentiu um calafrio, lá fora, havia o barulho de motores, buzinas e sirenes, era o barulho da cidade crescendo como um grande tumor. Ela mais uma vez mudou seu olhar para outro lugar e viu Joe, ele olhou para ela distraído, e ela viu os olhos dele cintilarem com um brilho lunático. Ela rapidamente baixou a cabeça e voltou a pensar sobre si mesma, o que Trudy sabia que não era nada bom para a saúde de Joan.
Joe sentiu um desejo intenso ao olhar para Joan, ele sabia que era um monstro, ele sabia que era mais um animal podre, que vinha do ventre fétido daquela cidade corrompida pelo pecado, mas ele não gostava de pensar nisso, ele tinha toda a certeza que a vida só é vivida uma vez e, é claro deve-se vivê-la o melhor possível, mas ao pensar nisso uma mosca voou em volta do seu capuccino, que provavelmente já estava frio, interrompendo-lhe o pensamento, e ele resmungou para si mesmo enquanto espantava a mosca:- Animal nojento!
O estranho assistiu calado á toda cena da troca de olhares entre Joan e Joe até a mosca. E ele riu de Joe, um riso que chamou atenção de todos ali, e que fez todos olharem para ele com um olhar interrogativo e ele virou de lado olhando pela janela que dava para a rua, e ao fazer isso focou rapidamente o olhar no trem que passava ali perto em um viaduto, e ele pensou o quanto ele havia esquecido as pessoas lá fora enquanto estava ali. Mas logo ele desviou o pensamento olhado para a calçada do outro lado da rua, havia um homem em cima de um caixote de madeira fazendo gestos e aparentemente falando alto, ao redor dele, algumas pessoas se reuniam, umas pareciam rir e outras o olhavam sérias com as mãos levantadas para o céu. O estranho pensou consigo que só Deus sabia quantos fanáticos religiosos haviam brotado na cidade nos últimos anos, e de repente passou-lhe pela cabeça uma frase: A fé é o mal do século. Ele tinha lido isso em algum lugar e murmurou para si mesmo: -Ou a solução...
Trudy, que limpava uma mesa observou o estranho se levantar, deixar dinheiro na mesa e sair porta afora, e Joan o imitou. Joe observou-a sair e sorriu. Trudy voltou para trás do balcão e olhou para Joe com um olhar estranho, e ele lentamente virou sua cabeça e a encarou.
O estranho, Joan e mais centenas de pessoas na calçada ouviram um tiro vindo do restaurante, o estranho virou-se e viu a porta do restaurante se abrir...